Blefaroplastia movimenta o turismo de saúde no Brasil
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Blefaroplastia movimenta o turismo de saúde no Brasil

Quando uma pessoa sai de sua cidade, compra uma passagem, reserva um hotel, utiliza transporte local e permanece alguns dias em outro destino para realizar um procedimento médico, não existe apenas uma cirurgia acontecendo. Existe também uma viagem. É justamente nesse encontro entre deslocamento, medicina e serviços turísticos que cresce um segmento ainda pouco percebido por muita gente: o turismo de saúde.

A definição não é apenas conceitual. O próprio Ministério do Turismo considera Turismo de Saúde as atividades turísticas decorrentes da utilização de serviços para fins médicos, terapêuticos e estéticos. Dentro desse universo estão pacientes que viajam em busca de consultas, tratamentos e procedimentos cirúrgicos, movimentando paralelamente meios de hospedagem, transporte, alimentação e uma extensa cadeia de serviços no destino escolhido.

E uma cirurgia em especial ajuda a dimensionar o tamanho desse movimento no Brasil. A blefaroplastia, procedimento realizado na região das pálpebras, colocou o país na liderança mundial. Segundo o Global Survey 2024, da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), foram estimadas 231.293 cirurgias de pálpebras no Brasil em apenas um ano, o equivalente a 10,9% de todos os procedimentos desse tipo contabilizados mundialmente pela pesquisa. O Brasil ficou à frente de Japão e Estados Unidos.

O número chama ainda mais atenção quando colocado dentro do próprio mercado brasileiro de cirurgia estética. Em 2024, a ISAPS estimou mais de 2,35 milhões de procedimentos cirúrgicos estéticos realizados no país, e a cirurgia das pálpebras esteve entre as mais realizadas. É um mercado que já possui dimensões expressivas e que também cria deslocamentos de pacientes em busca de médicos e estruturas especializadas.

Para entender como esse movimento acontece na prática e de que maneira a blefaroplastia vem criando fluxos de pacientes entre cidades, estados e até países, conversei com o médico Dr. Pedro Ruiz, do Instituto Pedro Ruiz, em São Paulo, clínica voltada especialmente para procedimentos na região das pálpebras. Segundo levantamento interno do instituto, cerca de 80% dos pacientes atendidos são de São Paulo e da Região Metropolitana, enquanto 15% chegam de outras regiões do Brasil e aproximadamente 5% vêm de outros países. Isso significa que, atualmente, cerca de um em cada cinco pacientes atendidos pela clínica vem de fora da capital paulista e de sua região metropolitana, um dado que ajuda a mostrar como um procedimento médico também pode gerar deslocamentos, hospedagens e consumo de diferentes serviços no destino.

Esse perfil de paciente fez com que parte da própria jornada de atendimento passasse a acontecer antes mesmo da chegada a São Paulo. Ruiz explica que pessoas que vivem em outras cidades, estados ou países podem iniciar o processo por meio de uma avaliação online, receber a solicitação dos exames necessários, realizá-los em sua cidade de origem e encaminhar os resultados previamente para análise da equipe. “A gente atende pacientes inclusive de outros países. Fazemos uma avaliação online e conseguimos definir a programação cirúrgica. Os exames podem ser realizados na cidade do próprio paciente e enviados para a equipe. Quando ele vem para São Paulo, já chega com todo esse processo organizado”, explica o médico. Segundo Ruiz, há pacientes que desembarcam na capital no dia anterior ao procedimento e outros, especialmente vindos de cidades próximas ou em voos curtos, que chegam no próprio dia da cirurgia.

Para quem precisa retornar de avião ou percorrer distâncias maiores, entretanto, o médico afirma que prefere orientar uma permanência mínima na cidade após o procedimento, de acordo com as condições de cada caso. “Para quem vai pegar um voo ou retornar para um lugar mais distante, eu gosto que permaneça pelo menos uma noite em São Paulo. Assim, se houver alguma intercorrência nesse período inicial do pós-operatório, o paciente está perto e conseguimos prestar toda a assistência necessária”, diz Ruiz. Há também aqueles que optam por permanecer cinco ou sete dias na capital, seja por maior comodidade ou para realizar etapas do acompanhamento presencialmente. Em outros casos, quando há liberação médica, o paciente retorna para sua cidade e mantém parte do acompanhamento de forma remota, podendo inclusive realizar procedimentos posteriores, como retirada de pontos, com orientação da equipe responsável.

É justamente nesse momento que o procedimento médico passa a se encontrar diretamente com a atividade turística. Um paciente que sai de outro estado para realizar uma cirurgia em São Paulo pode precisar comprar uma passagem aérea ou rodoviária, reservar hotel, utilizar táxis ou aplicativos de transporte, consumir alimentação e, muitas vezes, viajar acompanhado. Dependendo do tempo recomendado ou escolhido para permanência, essa estadia pode se estender por vários dias. Quando esse movimento é multiplicado pelo número de pessoas que viajam anualmente para consultas e procedimentos médicos, surge uma cadeia econômica que vai muito além do consultório ou da sala cirúrgica e alcança setores tradicionais do turismo, como hospedagem, mobilidade e alimentação.

A própria expansão da blefaroplastia ajuda a explicar por que esse fluxo vem ganhando importância. Na avaliação de Pedro Ruiz, um dos fatores está nas características do procedimento quando comparado a cirurgias plásticas de maior porte. “Dependendo da indicação e da complexidade, realizamos determinadas cirurgias em cerca de 30 ou 40 minutos. É diferente de procedimentos maiores, que podem exigir uma recuperação muito mais longa. Isso acaba facilitando a decisão de muitos pacientes”, afirma. O médico também destaca que a região dos olhos ocupa posição central na percepção do rosto e na comunicação entre as pessoas, fazendo com que mudanças nessa área sejam percebidas com facilidade. “O resultado fica em uma das regiões para onde as pessoas mais olham quando estão conversando. Um paciente faz, outras pessoas percebem a mudança e perguntam o que aconteceu. Isso gera muita indicação”, explica.

Outro ponto citado pelo especialista é a própria anatomia da região das pálpebras. Por possuir uma pele muito fina, os sinais de envelhecimento podem aparecer de maneira bastante evidente nessa área do rosto. “A pele da pálpebra é extremamente fina e os sinais do envelhecimento aparecem muito nessa região. Muitas vezes a pessoa ainda não percebe grandes alterações em outras partes do rosto, mas já começa a notar mudanças importantes no olhar”, afirma Ruiz. Segundo ele, isso também contribuiu para uma mudança no perfil de quem procura o procedimento. Se durante muito tempo a blefaroplastia esteve associada principalmente a pessoas acima dos 50 anos ou a situações em que havia comprometimento funcional, atualmente pacientes mais jovens também procuram avaliação por questões relacionadas à aparência e a características específicas do olhar.

“O perfil mudou demais. Antes era uma cirurgia muito relacionada ao paciente de 50 ou 55 anos para cima. Hoje recebemos pacientes bem mais jovens. Nem sempre existe um problema funcional; muitas vezes há uma característica do olhar que incomoda aquela pessoa e ela procura uma avaliação para entender o que pode ser feito”, diz o médico. Para Ruiz, essa transformação acompanha ainda um movimento mais amplo de pessoas que passaram a dedicar maior atenção aos cuidados com a aparência e à forma como desejam envelhecer. A blefaroplastia pode ter indicação estética, funcional ou reunir as duas situações e, como qualquer procedimento cirúrgico, precisa ser avaliada individualmente, considerando as condições do paciente, os riscos, a técnica indicada e as orientações para o período de recuperação.

Os mais de 231 mil procedimentos de pálpebras estimados no Brasil em 2024 mostram que a blefaroplastia já deixou de ocupar um espaço pequeno dentro da cirurgia estética. E os pacientes que cruzam cidades, estados e países em busca desse tratamento revelam outra dimensão desse crescimento. Por trás de parte dessas cirurgias existe também uma passagem aérea, um quarto de hotel, um carro de aplicativo e alguém que escolheu viajar para cuidar de si. É saúde, é estética, e também é turismo.

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