Na eleição para a Câmara, famosos dão lugar a 'políticos influencers'

Tiririca (PSD-CE) e outras celebridades acabaram não sendo eleitas apesar do apelo midiático. Já candidatos “influencers” da política, como Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP) bateram recordes de votação na Câmara. — Foto: Renato Araújo/Câmara dos Deputados/Divulgação

As celebridades perderam espaço para os “políticos influencers” na disputa pela Câmara dos Deputados. Enquanto a maioria dos famosos que tentou uma vaga fracassou nas urnas, alguns dos candidatos mais votados do país construíram sua projeção política nas redes sociais, transformando milhões de seguidores em milhões de votos.

Candidatos como Silvia Abravanel (PSD-SP), Val Marchiori (Republicanos-SP), Luiz Fabiano, o “Fabuloso” (MDB-SP), e Manoel Gomes, o “Caneta Azul” (Avante-SP), tentaram uma vaga, mas ficaram de fora das 513 cadeiras da Câmara. Até Tiririca (PSD-CE), que já chegou a receber 1,3 milhão de votos em sua primeira eleição, não conseguiu se reeleger após 14 anos como deputado federal.

Na outra ponta, Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP) ficaram entre os campeões de votos para a Câmara. Juntos, receberam 7.754.228 votos. Em comum, os três ganharam projeção política nas redes sociais, onde acumulam milhões de seguidores e transformaram sua presença digital em capital eleitoral.

O resultado mostra uma mudança na relação entre fama e política. Em vez de depender de celebridades que chegam às urnas conhecidas da TV, do esporte ou de outras áreas, a política passou a produzir seus próprios famosos nas redes sociais. São candidatos que constroem audiência em torno de valores e causas antes mesmo do período eleitoral.

Os famosos que se elegeram e que não se elegeram em 2026

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Para Issaaf Karhawi, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) e pesquisadora de influenciadores digitais, a própria dinâmica das redes favorece essa aproximação.

“As redes sociais foram construídas nessa lógica horizontal de comunicação, e isso aparece no discurso dos influenciadores. É muito diferente das celebridades midiáticas que dependiam e dependem da mídia, que dá visibilidade. No digital, existe essa sensação de que a visibilidade é manufaturada, de que cada um produz com as próprias mãos”, afirma.

Mais do que acumular seguidores, esses políticos estabelecem uma relação contínua com o público e assumem o papel de formadores de opinião, traduzindo e simplificando debates para grupos específicos. Segundo Karhawi, esse vínculo combina identificação e projeção: o eleitor se reconhece naquele discurso e, ao mesmo tempo, deposita nele expectativas para o futuro.

Essa dinâmica também mudou a lógica das campanhas. Para políticos que já cultivam uma audiência diariamente, a disputa eleitoral não começa apenas quando a campanha vai às ruas.

“É preciso que a campanha seja feita nas ruas. Também. Nas ruas e, sobretudo, nas redes sociais. É preciso destinar verba de campanha para as redes sociais. É preciso, de fato, considerar que as pessoas estão nesses espaços, gostemos ou não da lógica de funcionamento das redes”, afirma Karhawi.

A professora cita o caso da deputada federal Ana Elisa (PT-MG), eleita com mais de 500 mil votos no domingo (4). Aos 20 anos, Ana Elisa é a deputada federal mais jovem eleita em Minas Gerais. Pelas redes sociais, a parlamentar, que é influenciadora, comentou a dedicação da campanha nas redes.

“A rede social foi tratada como demérito várias vezes, e eu poderia ter feito muito mais se eu não tivesse que estar perdendo tempo provando que rede social elege. Vá a um ponto de ônibus às 18h30, e veja se tem alguém que não está com a mão no telefone. Para as ruas nós já vamos, mas nós precisamos ir para as redes”, disse.

Ana Elisa Santos – Deputada Federal mais jovem eleita por MG – de Divinópolis — Foto: Redes sociais/Reprodução

‘Efeito Tiririca’ e o novo ‘puxador de votos’

A mudança de perfil também aparece entre os chamados “puxadores de votos” — candidatos com votação suficiente para ajudar a eleger outros nomes do partido. Em 2026, o maior deles foi Nikolas Ferreira (PL-MG), com 3,1 milhões de votos, o equivalente a 67,6% dos votos do PL para deputado federal em Minas Gerais. Sua votação contribuiu para garantir outras 13 cadeiras à legenda no estado.

Na sequência aparecem Lucas Pavanato (PL-SP), com cerca de 3 milhões de votos e influência na eleição de outros sete deputados do partido em São Paulo, e Erika Hilton (PSOL-SP), com 1,6 milhão, que contribuiu para outras três vagas.

O papel já foi ocupado por celebridades. Em 2010, Tiririca foi o deputado federal mais votado do país, com mais de 1,3 milhão de votos, e ajudou a eleger outros cinco candidatos de sua coligação. O fenômeno ficou conhecido como “Efeito Tiririca” e estimulou partidos a apostar em outros nomes famosos da TV, do esporte e do entretenimento.

Desde então, as regras mudaram. As coligações nas eleições proporcionais foram proibidas e a legislação passou a exigir um desempenho mínimo individual para que um candidato possa se beneficiar dos votos recebidos por outros nomes do partido ou da federação. As mudanças reduziram o alcance dos puxadores, mas não eliminaram seu peso.

O que mudou foi sobretudo o perfil dos puxadores de votos: no lugar de celebridades que migravam para a política, ganharam espaço políticos que construíram a própria fama nas redes sociais.

Para Issaaf Karhawi, o desempenho desses candidatos reforça que as plataformas digitais não podem mais ser tratadas como um espaço secundário do debate político.

“Nos últimos anos, tinha muita gente que dizia coisas como: ‘Não vou debater com tiktoker’. O campo político não está mais na posição de menosprezar a importância das redes”, afirma.


Source: g1 > Política