Praia em Zanzibar, um paraíso!
Pedro Hauck

Praia em Zanzibar, um paraíso!

Depois de encarar os ventos gelados a quase 6.000 metros de altitude no Kilimanjaro e a poeira dourada dos safáris no Serengeti, o corpo e a mente pedem trégua. Na Tanzânia, essa pausa tem endereço certo: pegar um voo curto de ATR a partir de Arusha ou cruzar de balsa a partir de Dar es Salaam rumo ao arquipélago de Zanzibar, no Oceano Índico.

Mar azul de Zanzibar
Pedro Hauck

Mar azul de Zanzibar

A primeira imagem que se fixa na retina é digna de cartão-postal: faixas extensas de areia branca e fina banhadas por um mar de tons inacreditáveis de azul-turquesa, recortado pelas velas triangulares dos tradicionais barcos de madeira de pescadores (dhows). Mas Zanzibar está longe de ser apenas um resort de praia para relaxar. Sob o aroma adocicado de cravo-da-índia, canela e noz-moscada que impregna o ar, repousa uma das encruzilhadas históricas mais fascinantes e dolorosas do mundo.

A chegada portuguesa e a rota das Índias

Zanzibar não é uma ilha única, mas um arquipélago semi-autônomo composto por duas ilhas principais — Unguja (chamada corriqueiramente de Zanzibar) e Pemba — além de dezenas de ilhotas menores, situadas a cerca de 35 quilômetros da costa continental africana.

undefined
Pedro Hauck

Cidade Velha de Zanzibar

Sua posição geográfica estratégica nos ventos de monção do Oceano Índico fez do local um polo comercial milenar entre africanos bantus, persas e mercadores indianos. A rota europeia começou em 1499, quando Vasco da Gama aportou na costa leste africana em seu retorno das Índias. Poucos anos depois, em 1503, a coroa portuguesa estabeleceu controle sobre a ilha, integrando-a ao Império Ultramarino Português.

Por quase dois séculos, Zanzibar serviu de entreposto de abastecimento e cobrança de tributos para as caravelas lusas. Contudo, a presença portuguesa foi marcada por cobranças pesadas de impostos e atritos constantes com a população suaíli local. No final do século XVII, os governantes locais pediram auxílio aos navegadores e guerreiros do Sultanato de Omã. Em 1698, após a tomada do Forte Jesus em Mombaça (no atual Quênia), os árabes omanis expulsaram definitivamente os portugueses de Zanzibar e assumiram o controle do arquipélago.

O império de Omã e o centro das especiarias

Sob a liderança omani, Zanzibar viveu uma transformação radical. A importância da ilha cresceu a ponto de, em 1840, o sultão Seyyid Said transferir formalmente a capital de todo o Império de Omã de Mascate para Zanzibar.

O sultão introduziu o plantio em larga escala de cravo-da-índia, além de canela, pimenta e baunilha, transformando Zanzibar na célebre “Ilha das Especiarias” e na maior produtora mundial de cravo da época. Para manter essa máquina agrícola funcionando e abastecer o comércio com a Península Arábica e a Ásia, foi necessária uma mão de obra gigantesca — e foi aí que se consolidou a página mais sombria da história da ilha.

O mercado de almas: a ferida da escravidão

Entre os séculos XVIII e XIX, Zanzibar tornou-se o maior e mais infame entreposto do comércio de escravizados do Oceano Índico. Carruagens humanas e expedições armadas lideradas por mercadores árabes e chefes locais adentravam o interior da África continental (em territórios hoje pertencentes ao Congo, Maláui e Tanzânia), capturando homens, mulheres e crianças.

Os cativos eram forçados a marchar por centenas de quilômetros acorrentados até o litoral, onde eram amontoados em embarcações insalubres rumo a Zanzibar. Na ilha, funcionava o mercado central a céu aberto de Stone Town. Antes de irem a leilão, os prisioneiros eram confinados em porões escuros, sem janelas, água ou comida suficiente, para testar a resistência física. Aqueles que não aguentavam eram jogados ao mar.

Memorial da escravião em Zanzibar
Pedro Hauck

Memorial da escravião em Zanzibar

Visitar o antigo mercado de escravizados em Stone Town é uma experiência impactante e necessária. Onde ficavam as celas subterrâneas e o pelourinho de castigos, ergue-se hoje a Catedral Anglicana de Cristo. O altar-mor foi construído exatamente sobre o ponto onde ficava o tronco de chicoteamento. Ao lado da igreja, um monumento com esculturas de pedra presas por correntes originais de ferro homenageia a memória de milhões de vítimas.

Sob intensa pressão da Marinha Real britânica, que patrulhava as águas contra o tráfico negreiro, o sultão foi forçado a fechar o mercado em 1873. Pouco tempo depois, em 1890, o arquipélago foi transformado em protetorado britânico, condição que durou até a independência em 1963 e a posterior união com Tanganica em 1964 — fusão geopolítica que originou o nome do país atual: Tan-Zânia.

Pelos labirintos de Stone Town: o filho mais ilustre

A capital histórica, Stone Town (a Cidade de Pedra, tombada como Patrimônio Mundial pela UNESCO), é um labirinto sensorial de ruelas estreitas demais para carros, onde se cruzam aromas de frituras de rua, crianças jogando bola e antigas casas com paredes de coral. O elemento arquitetônico mais famoso são as monumentais portas de madeira entalhada, com espigões de latão (influência indiana para deter elefantes de guerra) e motivos corânicos arábicos.

undefined
Pedro Hauck

Casa onde viveu Freddie Mercury em Zanzibar

Foi nesse caldeirão cosmopolita, em 5 de setembro de 1946, que nasceu o cidadão mais famoso de Zanzibar: Farrokh Bulsara, mundialmente conhecido como Freddie Mercury.

Filho de pais parsis de origem paquistanesa, o vocalista do Queen viveu sua infância entre na ilha antes de a família se refugiar na Inglaterra fugindo da violenta revolução civil de 1964. Hoje, a casa onde ele viveu no centro de Stone Town abriga um pequeno museu com fotografias raras, manuscritos e relatos sobre a juventude daquele que se tornaria uma das maiores vozes do rock mundial.

A recompensa do Índico

Depois de mergulhar na arquitetura e na densa bagagem histórica de Stone Town, o destino natural é a costa. As praias do norte, como Nungwi e Kendwa, são famosas porque quase não sofrem o efeito das marés extremas, garantindo um mar calmo e cristalino para nadar o dia inteiro. Já na costa leste, como em Paje e Jambiani, a maré baixa recua centenas de metros, revelando fazendas de algas marinhas cultivadas pelas mulheres locais e bancos de areia paradisíacos.

Comer frutos do mar frescos em quiosques de palha, caminhar descalço na maré baixa e ver o pôr do sol avermelhado no Oceano Índico após uma jornada exaustiva de montanha e savana faz qualquer viajante entender o significado do lema que se ouve em cada esquina da ilha: pole pole (devagar, com calma) e Hakuna Matata (sem problemas).

Zanzibar é o arremate perfeito para qualquer travessia pelo leste africano: um lugar onde a beleza natural exuberante e a história humana mais profunda convivem sob as mesmas águas.

    Compartilhar
    Tags: Tanzânia
    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

    <!– taboola

    /taboola –>

    Mais Recentes