
Imagine caminhar por uma grande metrópole e encontrar gatos dormindo tranquilamente na porta de lojas, ocupando cadeiras de restaurantes, circulando por estações de metrô ou simplesmente observando o movimento de cima de uma janela. Em vários pontos há potes de água, comida e pequenas casas instaladas especialmente para eles. E não estamos falando de algumas dezenas de animais: estimativas divulgadas pela própria administração municipal apontam para mais de 160 mil gatos vivendo nas ruas dessa cidade. O número exato é impossível de determinar, justamente porque se trata de uma população livre, mas a dimensão ajuda a entender por que os gatos se tornaram praticamente um símbolo local.
O destino é Istambul, na Turquia, uma das poucas grandes cidades do mundo divididas entre dois continentes, Europa e Ásia. E quem visita a cidade percebe rapidamente que esses animais não são vistos simplesmente como “gatos abandonados”. Muitos são tratados quase como moradores do bairro. Comerciantes alimentam os animais que permanecem próximos aos seus estabelecimentos, moradores deixam água e comida nas calçadas e é comum encontrar estruturas improvisadas ou construídas especialmente para que eles possam dormir protegidos.
Eu estive em Istambul há seis anos e isso foi uma das coisas que mais me chamou atenção. Vi pessoalmente casinhas para gatos dentro e nas proximidades de estações de metrô, comedouros e bebedouros espalhados pelas ruas e estabelecimentos privados que praticamente adotavam os animais que viviam naquela região. Em novembro, seis anos depois, volto à cidade e quero mostrar novamente essa relação tão curiosa nas minhas redes sociais. Quem quiser acompanhar essa viagem pode me seguir no Instagram, @vitor.vianna.
E quem imagina que vai encontrar apenas aquele típico “gatinho vira-lata” pode se surpreender. Há felinos de praticamente todos os tipos: pretos, brancos, amarelos, rajados, tricolores, extremamente peludos ou de pelo curto, além de gatos com olhos verdes ou azuis e animais com características associadas a raças conhecidas da região. A Turquia, inclusive, é terra de gatos famosos como o Angorá Turco e o Van Turco. Nas ruas de Istambul, porém, aparência não significa necessariamente pedigree: a enorme diversidade é resultado também de séculos de circulação de animais pela cidade.
Mas de onde vieram tantos gatos?
Não existe um único episódio histórico capaz de explicar a população atual, mas uma parte importante dessa história começa justamente no mar. Durante séculos, Constantinopla (atual Istambul) esteve entre os principais centros comerciais entre Mediterrâneo, Mar Negro, Europa e Ásia. Navios transportavam alimentos, grãos, tecidos e mercadorias, e ratos eram um problema constante dentro das embarcações. Por isso, gatos eram levados a bordo para controlar os roedores. Ao chegarem aos portos da cidade, muitos acabavam permanecendo em terra, enquanto novos animais continuavam chegando por diferentes rotas comerciais.
A utilidade dos gatos continuava depois do desembarque. Armazéns de alimentos, mercados e construções antigas eram ambientes perfeitos para roedores, fazendo desses felinos verdadeiros aliados da população. Mas a relação acabou indo muito além do controle de pragas. Durante o Império Otomano, o cuidado com animais de rua passou a fazer parte da vida cotidiana e de práticas de caridade. Essa tradição atravessou gerações e ajuda a explicar por que, ainda hoje, alimentar um gato que vive na rua é algo absolutamente comum em Istambul. Estudos sobre a cultura da cidade apontam justamente essa continuidade entre práticas do período otomano e o cuidado atual com os animais urbanos.
A própria prefeitura mantém atualmente uma estrutura veterinária dedicada aos animais sem tutor. O município informa que realiza vacinação, castração, tratamentos, identificação e registro, além de atender animais feridos. Somente até o fim de setembro de 2026, os serviços veterinários municipais registraram mais de 130 mil atendimentos e tratamentos, além de mais de 31 mil castrações. No caso dos gatos sem tutor que não são adotados, a política municipal prevê que, depois dos procedimentos de saúde, eles possam retornar à região onde viviam.
Talvez seja justamente isso que cause tanto estranhamento em quem visita Istambul pela primeira vez. Em muitas cidades do mundo, um gato vivendo na rua é automaticamente associado ao abandono. Ali, embora evidentemente existam problemas relacionados à população de animais sem tutor, muitos desses gatos parecem pertencer à própria comunidade. Um alimenta, outro coloca água, outro leva ao veterinário e outro disponibiliza um cantinho para dormir. Não necessariamente existe um único dono.
Gostei de um gato. Posso adotar e trazer para o Brasil?
Sim, é possível, mas não funciona simplesmente colocando o gato em uma caixa de transporte e indo para o aeroporto. Um animal retirado das ruas precisa primeiro passar pelo processo de adoção e regularização na Turquia. As regras turcas determinam que gatos levados ao exterior sejam identificados por microchip, registrados no sistema oficial e tenham documentação própria. Quando ocorre adoção por uma pessoa estrangeira com saída definitiva do animal do país, a mudança de responsável também precisa ser formalizada e o animal registrado para exportação. Além disso, é obrigatório um certificado veterinário oficial emitido pelas autoridades turcas.
Para entrar no Brasil, cães e gatos precisam chegar acompanhados de um Certificado Veterinário Internacional – CVI, emitido ou referendado pela autoridade veterinária oficial do país de procedência. O Brasil não exige autorização prévia de importação para cães e gatos domésticos e, pelas regras brasileiras, o microchip não é obrigatório; no entanto, ele acaba sendo necessário nesse caso porque faz parte do processo de identificação exigido pela Turquia para a saída do animal.
Para gatos com 90 dias ou mais, é necessária vacinação contra a raiva dentro da validade. Se for a primeira vacina antirrábica, precisam ter transcorrido pelo menos 21 dias entre a aplicação e o embarque. O animal também deve receber tratamento contra parasitas internos e externos dentro dos 15 dias anteriores à emissão do certificado, além de passar por exame clínico dentro dos 10 dias anteriores à emissão do CVI, comprovando que está saudável e apto para viajar.
Depois disso, ainda é necessário verificar as regras da companhia aérea: cada empresa determina tamanho da caixa de transporte, limite de peso, disponibilidade para levar animais na cabine ou no porão e quantidade máxima de pets por voo. Ou seja, se você se apaixonar por um gato em Istambul, pode existir um caminho para trazê-lo para o Brasil, mas é algo que precisa ser planejado e não resolvido na manhã do voo de volta.
Istambul tem mesquitas centenárias, palácios, mercados, o Bósforo e uma história que atravessa impérios. Mas poucas coisas resumem tão bem a personalidade da cidade quanto seus gatos. Eles estão nas calçadas, nos cafés, nos metrôs, nas lojas e na rotina dos moradores. E talvez seja exatamente isso que transforme uma população de mais de 160 mil felinos de rua em uma das atrações mais inesperadas de uma das cidades mais fascinantes do mundo.
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Source: Turismo


