
A proibição total de bets no Brasil (decisão, com amplo respaldo popular, tomada por intermédio de Medida Provisória assinada pelo presidente Lula e que precisa ser votada em até 120 dias pelo Congresso, como explica, aqui, matéria do iG ), não foi, via de regra, bem aceita por clubes, jornalistas (esportivos e não esportivos), influencers e veículos tradicionais e independentes patrocinados por bets.
Para pegar emprestado um jargão do juridiquês, toda a cadeia do futebol poderia alegar SUSPEIÇÃO e se isentar de comentar o assunto. Ou, ao comentar e analisar, como estou fazendo, deixar claro o quanto hoje somos dependentes (mais ou menos, direto ou indiretamente) das bets.
A verdade é que mesmo quem, como eu, nuuuuuunca fez propaganda de bets (nem de álcool, nem de cigarro!), participou de programas ou lives com intervalos comerciais bancados por todos os tipos de anúncios, inclusive da indústrias em que jamais concordaria em emprestar meu nome e credibilidade.
Bridemos o óbvio ululante: em nenhum veículo que trabalhei na vida, e trabalhei, e ainda colaboro, em veículos grandes e tradicionais, em TV, rádio, internet e mídia impressa), fui consultado sobre os anúncios veiculados, os que pagavam meu salário, ainda que eu não tivesse, como não tenho, absolutamente nada com isso.
Proibir ou permitir as bets não é, como pode parecer, uma decisão tão óbvia, maniqueísta, do tipo certo ou errado, há nuances e argumentos aceitáveis tanto para a proibição quanto para a restrição (o libera geral é indefensável), mas não é aceitável distorcer fatos ou abusar da incoerência para defender o próprio bolso ou emprego porque fica feio…
Ora, o crime organizado emprega pessoas, o tráfico de drogas emprega pessoas. Não acho aceitável que alguém defenda uma facção criminosa com o argumento de que, se legalizado, ela pagaria impostos. E, como não é regularizada, ela continua existindo da mesma maneira e o estado não ganha nada com isso. Eu, mesmo assim, acho que elas não devem ser legalizas.
No entanto, ainda que se tratem de coisas diferentes, com suas peculiaridades, parece-me bastante razoável aceitar que exista a indústria alcoólica e a indústria tabagista, mas que elas, legalmente à disposição dos maiores de idade, não possam patrocinar eventos, escuderias ou marcas esportivas.
As bets, que também são para o público adulto e também provocam vícios, poderiam ter a mesma legislação atual do tabaco? Ou o tabaco deveria ser erradicado do país? Legalizados e tudo, pagando impostos, milhares de pessoas morreram ao consumir bebidas falsificadas com metanol… Adolescentes, mesmo proibidos, fumam e bebem produtos originais e falsificados.
Não é minha posição, mas acho legítimo e aceitável que alguém defenda a liberação das bets, inclusive com permissão para fazer propaganda. Mas, por coerência, essas mesmas pessoas defenderiam defender a mesma legislação para o tabaco e o álcool.
Outro aspecto, esse irretocável, é que contratos foram assinados legalmente, dentro da lei vigente. Nesse sentido, concordo que deveria ter um tempo de transição para a aplicação e adequação às novas normas, respeitando os contragos em vigência.
Agora, se o argumento pela regularização e liberação for o cínico de que elas pagam imposto e, sem legalização, vão continuar existindo sem pagar imposto, os mesmos têm que defender a regulamentação das facções criminosas e do tráfico: ou alguém vai dizer que, mesmo proibidas e não pagando impostos, elas não existem?
Aliás, sempre aparece um vídeo famoso, de um Roda Viva antigo, com jornalistas tirando a cueca pela cabeça, indignados, com as leis, implantadas à época, restritivas ao cigarro. Ainda que não devem tirar de contexto o momento em que o programa foi ao ar, não deixa de causar constrangimento e vergonha alheia.
Para alguns, não todos, que fique claro, seria mais honesto assumir que são favoráveis às bets porque a indústria do jogo, que destrói famílias, bancam os seus vencimentos. Simples e triste assim!
Viva a memória! E viva a coerência!
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