
Quando a maioria das pessoas pensa em escalar no Himalaia, a mente viaja quase automaticamente para o Nepal: caravanas de iaques, vilarejos cheios de cafés e trilhas consagradas pelo turismo internacional. Mas existe um outro Himalaia, escondido no extremo norte da Índia, esculpido pela aridez, desfiladeiros colossais e um isolamento que o montanhismo comercial quase apagou de outras partes do planeta.
Nossa expedição rumou para o Ladakh e a remota região de Zanskar, com o objetivo de alcançar os 7.077 metros do Monte Kun, uma montanha imensa de gelo e rocha que raramente vê pegadas brasileiras.
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O Pequeno Tibete
O choque começou logo na aterrissagem em Leh, a capital do Ladakh. Encravada a 3.500 metros de altitude em um deserto frio de montanha, a cidade desconstrói de imediato o estereótipo ocidental sobre a Índia. Nada do calor sufocante ou do formigueiro humano caótico de Nova Déli: o ar é fresco, as ruas centrais são reservadas aos pedestres e as pessoas convivem em um ritmo sereno e contemplativo.

Dominando a paisagem em um promontório rochoso, o Palácio de Leh evoca a mesma arquitetura do Palácio de Potala, em Lhasa. Não por acaso, a região é chamada de “Pequeno Tibete”. Entre rodas de oração budistas, mercados de artesanato e mosteiros cravados em penhascos milenares, fomos recebidos com uma cerimônia de puja conduzida por um lama, recebendo as bênçãos para adentrar montanhas onde o ser humano é apenas um visitante fugaz.
Antes de colocar o pé na trilha, contudo, a burocracia indiana impôs seu teste de paciência: entrevistas obrigatórias e formulários estritos na Indian Mountaineering Foundation (IMF), que proíbe com rigor comunicadores via satélite como inReach e antenas portáteis. Na Índia alpina, a desconexão é compulsória.
A fronteira dos contrastes e a entrada no vale
A saída de Leh rumo à montanha foi uma verdadeira aula de geopolítica e geografia física a céu aberto. Seguimos pela mítica rodovia NH-1, palco de conflitos históricos na região de Kargil. Ao cruzar montanhas ocre entrecortadas por oásis de álamos verdes irrigados pelo degelo, a paisagem cultural deu uma guinada dramática: deixamos os mosteiros budistas para trás e entramos em Kargil, uma cidade de população muçulmana xiita, cuja arquitetura e fisionomia remetem diretamente à Ásia Central e à proximidade com a fronteira paquistanesa.
Deixando o asfalto, entramos no Vale do Rio Suru. A pista rústica serpenteia ao lado de vertentes rochosas abruptas até a ponte sobre o rio Shafat, dominada pela imponente Torre de Shafat. Ali, a civilização motorizada terminou.

Cruzamos pontes pênseis, prados verdes pontilhados por milhares de cabras de pastores nômades e fomos engolidos pela morena glacial. Em um platô a 4.550 metros, as mulas descarregaram os domos e erguemos o Campo Base. Olhando para cima, sabíamos que os dias de caminhada fácil haviam acabado. O maciço de Nun-Kun nos esperava com um silêncio absoluto e milhares de metros verticais de gelo.
Sete Mil Metros de Silêncio: A conquista do teto esquecido da Índia
Deixar a terra firme e entrar no Glaciar Shafat é atravessar uma fronteira invisível. Toda a poeira, os mosteiros milenares e a aridez do Ladakh ficam para trás. A partir dos 4.550 metros do Campo Base, o que começou foi um jogo metódico disputado contra o ar rarefeito, a gravidade e o próprio corpo.

O Monte Kun não se entrega por trilhas batidas. É uma montanha de isolamento severo, onde cada acampamento de altitude exige esforço braçal, paciência e cumplicidade com os sherpas que trabalham ao nosso lado.
A engrenagem da altitude
A rotina na alta montanha segue um ciclo clássico: subir para aclimatar, carregar suprimentos e descer para descansar. A primeira investida nos levou até a zona de ablação da geleira, onde o gelo fóssil se mistura a toneladas de pedras soltas. Ali calçamos as botas pesadas e os crampons de aço para alcançar o Campo 1, a 5.340 metros. O objetivo era simples: estocar comida e barracas, tocar a altitude e voltar ao Campo Base para recuperar o corpo com comida quente, chá e um bom banho de caneco.

No Campo Base, entre momentos de descanso e o som constante do rio de degelo, os sherpas ergueram um chörten de pedras e esticaram bandeiras budistas multicolores para a tradicional cerimônia de puja. Em meio à fumaça de incensos e ramos de zimbro, pediram passagem e proteção à montanha. Não havia lamas letrados entre nós, apenas homens simples da montanha rezando com devoção genuína, um ritual discreto que renova o ânimo de qualquer um.

A aproximação final, no entanto, cobra seu preço. Entre ajustes de equipamentos, variações de saúde na equipe e uma ponte levada pela cheia repentina do rio de degelo, chegou o momento das decisões difíceis. Uma parte dos nossos companheiros precisou abrir mão do ataque por limitações físicas e médicas, iniciando a descida com segurança. Para os que continuaram, a montanha impôs seu trecho mais duro: uma muralha vertical de gelo e rocha rumo ao Campo 2 (cerca de 6.000 m). Subir pendurado em ascensores mecânicos (jumares), com duas mochilas pesadas nas costas enquanto a neve caía sem trégua, exigiu cada átomo de energia.
A madrugada mais fria
Depois de uma travessia mais suave pelo platô suspenso até o Campo 3 (6.300 m), o ataque final começou no breu total das dez da noite. O céu estava limpo, cravejado de estrelas, sem lua.

A rota começa com uma rampa longa até a base da grande parede, onde transpusemos uma enorme greta terminal (bergschrund) em terreno vertical. Dali em diante, a rota nos jogou sobre uma crista de neve afiada e vertiginosa. No escuro absoluto, você não enxerga os abismos de milhares de metros que caem de ambos os lados; sua realidade se resume ao foco da lanterna de cabeça, à tensão da corda fixa e ao estalo seco dos crampons cravando no gelo. Um passo em falso não era tolerado.

Vencida a crista, encaramos uma sucessão exaustiva de rampas íngremes e falsos cumes. O corpo pede ar a cada movimento, a garrafa térmica oferece um gole morno de chá nas poucas paradas seguras e o relógio marca a barreira dos 6.900 metros. Foi exatamente ali que o sol rompeu o horizonte: um espetáculo cinematográfico que coloriu os picos afiados do Himalaia ocidental em tons de dourado e violeta.
No ponto mais alto
Por volta do início da manhã, vencemos o último ressalto. A inclinação cedeu, o vento gelado açoitou o anorak e o horizonte se abriu por completo: estávamos no cume do Monte Kun, a 7.077 metros de altitude.
Estar no cume não gera euforia ruidosa; gera um silêncio esmagador e um alívio solene. O Wenceslau se jogou na neve em contemplação absoluta, e logo nos reunimos no cume com o Alex e o Thiago. Fiquei um tempo a mais no topo aguardando a chegada da Maria Tereza, que subia com perseverança impecável, para celebrarmos juntos aquela conquista singular.

Do cume, o olhar varreu as fronteiras geopolíticas da Ásia: o Paquistão de um lado, o Tibete do outro, e a silhueta inconfundível de gigantes como o K2 e o Nanga Parbat riscando o céu. Foi, até onde os registros históricos apontam, o primeiro cume brasileiro nessa montanha indiana formidável.
A descida exigiu dezenas de rapéis cautelosos pela parede congelada até o resgate das forças no Campo Base. De volta à terra firme, deixamos para trás o silêncio branco das alturas e embarcamos em direção ao calor e à densidade humana de Agra, onde o mármore do Taj Mahal nos esperava com uma história totalmente diferente.
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Source: Turismo


