Monte Kun visto do campo 2
Pedro Hauck

Monte Kun visto do campo 2

Quando a maioria das pessoas pensa em escalar no Himalaia, a mente viaja quase automaticamente para o Nepal: caravanas de iaques, vilarejos cheios de cafés e trilhas consagradas pelo turismo internacional. Mas existe um outro Himalaia, escondido no extremo norte da Índia, esculpido pela aridez, desfiladeiros colossais e um isolamento que o montanhismo comercial quase apagou de outras partes do planeta.

Nossa expedição rumou para o Ladakh e a remota região de Zanskar, com o objetivo de alcançar os 7.077 metros do Monte Kun, uma montanha imensa de gelo e rocha que raramente vê pegadas brasileiras.

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O Pequeno Tibete

O choque começou logo na aterrissagem em Leh, a capital do Ladakh. Encravada a 3.500 metros de altitude em um deserto frio de montanha, a cidade desconstrói de imediato o estereótipo ocidental sobre a Índia. Nada do calor sufocante ou do formigueiro humano caótico de Nova Déli: o ar é fresco, as ruas centrais são reservadas aos pedestres e as pessoas convivem em um ritmo sereno e contemplativo.

Vista do Palacio de Leh para a cordilheira de Zanskar em Ladakh, Índia.
Pedro Hauck

Vista do Palacio de Leh para a cordilheira de Zanskar em Ladakh, Índia.


Dominando a paisagem em um promontório rochoso, o Palácio de Leh evoca a mesma arquitetura do Palácio de Potala, em Lhasa. Não por acaso, a região é chamada de “Pequeno Tibete”. Entre rodas de oração budistas, mercados de artesanato e mosteiros cravados em penhascos milenares, fomos recebidos com uma cerimônia de puja conduzida por um lama, recebendo as bênçãos para adentrar montanhas onde o ser humano é apenas um visitante fugaz.

Antes de colocar o pé na trilha, contudo, a burocracia indiana impôs seu teste de paciência: entrevistas obrigatórias e formulários estritos na Indian Mountaineering Foundation (IMF), que proíbe com rigor comunicadores via satélite como inReach e antenas portáteis. Na Índia alpina, a desconexão é compulsória.

A fronteira dos contrastes e a entrada no vale

A saída de Leh rumo à montanha foi uma verdadeira aula de geopolítica e geografia física a céu aberto. Seguimos pela mítica rodovia NH-1, palco de conflitos históricos na região de Kargil. Ao cruzar montanhas ocre entrecortadas por oásis de álamos verdes irrigados pelo degelo, a paisagem cultural deu uma guinada dramática: deixamos os mosteiros budistas para trás e entramos em Kargil, uma cidade de população muçulmana xiita, cuja arquitetura e fisionomia remetem diretamente à Ásia Central e à proximidade com a fronteira paquistanesa.

Deixando o asfalto, entramos no Vale do Rio Suru. A pista rústica serpenteia ao lado de vertentes rochosas abruptas até a ponte sobre o rio Shafat, dominada pela imponente Torre de Shafat. Ali, a civilização motorizada terminou.

Vale de Shafat, acesso ao Monte Kun
Pedro Hauck

Vale de Shafat, acesso ao Monte Kun

Cruzamos pontes pênseis, prados verdes pontilhados por milhares de cabras de pastores nômades e fomos engolidos pela morena glacial. Em um platô a 4.550 metros, as mulas descarregaram os domos e erguemos o Campo Base. Olhando para cima, sabíamos que os dias de caminhada fácil haviam acabado. O maciço de Nun-Kun nos esperava com um silêncio absoluto e milhares de metros verticais de gelo.

Sete Mil Metros de Silêncio: A conquista do teto esquecido da Índia

Deixar a terra firme e entrar no Glaciar Shafat é atravessar uma fronteira invisível. Toda a poeira, os mosteiros milenares e a aridez do Ladakh ficam para trás. A partir dos 4.550 metros do Campo Base, o que começou foi um jogo metódico disputado contra o ar rarefeito, a gravidade e o próprio corpo.

Campo base do Monte Kun e nossa equipe da expedição completa.
Pedro Hauck

Campo base do Monte Kun e nossa equipe da expedição completa.

O Monte Kun não se entrega por trilhas batidas. É uma montanha de isolamento severo, onde cada acampamento de altitude exige esforço braçal, paciência e cumplicidade com os sherpas que trabalham ao nosso lado.

A engrenagem da altitude

A rotina na alta montanha segue um ciclo clássico: subir para aclimatar, carregar suprimentos e descer para descansar. A primeira investida nos levou até a zona de ablação da geleira, onde o gelo fóssil se mistura a toneladas de pedras soltas. Ali calçamos as botas pesadas e os crampons de aço para alcançar o Campo 1, a 5.340 metros. O objetivo era simples: estocar comida e barracas, tocar a altitude e voltar ao Campo Base para recuperar o corpo com comida quente, chá e um bom banho de caneco.

Acampamento 1, a 5.340 metros no Monte Kun na Índia.
Pedro Hauck

Acampamento 1, a 5.340 metros no Monte Kun na Índia.

No Campo Base, entre momentos de descanso e o som constante do rio de degelo, os sherpas ergueram um chörten de pedras e esticaram bandeiras budistas multicolores para a tradicional cerimônia de puja. Em meio à fumaça de incensos e ramos de zimbro, pediram passagem e proteção à montanha. Não havia lamas letrados entre nós, apenas homens simples da montanha rezando com devoção genuína, um ritual discreto que renova o ânimo de qualquer um.

Ascensão ao campo 2 com jumares
Pedro Hauck

Ascensão ao campo 2 com jumares

A aproximação final, no entanto, cobra seu preço. Entre ajustes de equipamentos, variações de saúde na equipe e uma ponte levada pela cheia repentina do rio de degelo, chegou o momento das decisões difíceis. Uma parte dos nossos companheiros precisou abrir mão do ataque por limitações físicas e médicas, iniciando a descida com segurança. Para os que continuaram, a montanha impôs seu trecho mais duro: uma muralha vertical de gelo e rocha rumo ao Campo 2 (cerca de 6.000 m). Subir pendurado em ascensores mecânicos (jumares), com duas mochilas pesadas nas costas enquanto a neve caía sem trégua, exigiu cada átomo de energia.

A madrugada mais fria

Depois de uma travessia mais suave pelo platô suspenso até o Campo 3 (6.300 m), o ataque final começou no breu total das dez da noite. O céu estava limpo, cravejado de estrelas, sem lua.

Monte Kun visto do campo 2
Pedro Hauck

Monte Kun visto do campo 2

A rota começa com uma rampa longa até a base da grande parede, onde transpusemos uma enorme greta terminal (bergschrund) em terreno vertical. Dali em diante, a rota nos jogou sobre uma crista de neve afiada e vertiginosa. No escuro absoluto, você não enxerga os abismos de milhares de metros que caem de ambos os lados; sua realidade se resume ao foco da lanterna de cabeça, à tensão da corda fixa e ao estalo seco dos crampons cravando no gelo. Um passo em falso não era tolerado.

Himalaia no horizonte no amanhecer desde o alto do Monte Kun.
Pedro Hauck

Himalaia no horizonte no amanhecer desde o alto do Monte Kun.

Vencida a crista, encaramos uma sucessão exaustiva de rampas íngremes e falsos cumes. O corpo pede ar a cada movimento, a garrafa térmica oferece um gole morno de chá nas poucas paradas seguras e o relógio marca a barreira dos 6.900 metros. Foi exatamente ali que o sol rompeu o horizonte: um espetáculo cinematográfico que coloriu os picos afiados do Himalaia ocidental em tons de dourado e violeta.

No ponto mais alto

Por volta do início da manhã, vencemos o último ressalto. A inclinação cedeu, o vento gelado açoitou o anorak e o horizonte se abriu por completo: estávamos no cume do Monte Kun, a 7.077 metros de altitude.

Estar no cume não gera euforia ruidosa; gera um silêncio esmagador e um alívio solene. O Wenceslau se jogou na neve em contemplação absoluta, e logo nos reunimos no cume com o Alex e o Thiago. Fiquei um tempo a mais no topo aguardando a chegada da Maria Tereza, que subia com perseverança impecável, para celebrarmos juntos aquela conquista singular.

Cume do Monte Kun, 7077 metros de altitude.
Pedro Hauck

Cume do Monte Kun, 7077 metros de altitude.

Do cume, o olhar varreu as fronteiras geopolíticas da Ásia: o Paquistão de um lado, o Tibete do outro, e a silhueta inconfundível de gigantes como o K2 e o Nanga Parbat riscando o céu. Foi, até onde os registros históricos apontam, o primeiro cume brasileiro nessa montanha indiana formidável.

A descida exigiu dezenas de rapéis cautelosos pela parede congelada até o resgate das forças no Campo Base. De volta à terra firme, deixamos para trás o silêncio branco das alturas e embarcamos em direção ao calor e à densidade humana de Agra, onde o mármore do Taj Mahal nos esperava com uma história totalmente diferente.

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