“Sumidouros de aeroportos”: quando o alerta vira pânico
Reproducao / Vitor Vianna

“Sumidouros de aeroportos”: quando o alerta vira pânico

Viajar sozinha deixou há muito tempo de ser uma exceção. Mulheres estão ocupando aeroportos, hotéis, estradas e destinos pelo mundo inteiro com cada vez mais independência. Um levantamento da Hostelworld divulgado em 2025, baseado em dados de mais de quatro milhões de viagens solo e em uma pesquisa com 3.334 viajantes, mostrou que 60% dos entrevistados que viajam sozinhos eram mulheres. Ao mesmo tempo, 55% delas apontaram a segurança como uma preocupação, contra apenas 18% dos homens. Hostelworld No Brasil, uma pesquisa do Ministério do Turismo com 2.712 brasileiras mostrou que 41,8% já haviam viajado sozinhas e 31,4% faziam esse tipo de viagem com alguma frequência. Serviços e Informações do Brasil

É justamente nesse cenário que uma narrativa começou a ganhar força nas redes sociais: a dos chamados “sumidouros de aeroportos”. São vídeos e relatos de mulheres que dizem ter sido seguidas dentro de terminais, abordadas por supostos funcionários ou que afirmam ter escapado de tentativas de sequestro para o tráfico humano. Em algumas versões, mulheres entrariam em banheiros de aeroportos, seriam dopadas e desapareceriam por áreas restritas sem deixar vestígios. Histórias assustadoras, principalmente para quem está planejando sua primeira viagem sozinha.

Foi para separar o medo dos riscos que realmente existem que, no dia 3 de outubro de 2026, fiz uma live no meu Instagram com Danny Boggione, criadora do projeto SobreVivendo na Turquia e ativista que há anos trabalha com conscientização e casos relacionados ao tráfico de pessoas. Danny já participa publicamente de debates sobre o tema e sobre as formas de aliciamento de vítimas, especialmente por meio de relações de confiança e falsas oportunidades.

Comecei a conversa fazendo uma pergunta direta: em todos esses anos acompanhando tráfico humano, ela já havia encontrado um caso comprovado daquilo que as redes hoje chamam de “sumidouro de aeroporto”? Uma pessoa que simplesmente estava indo viajar, entrou em um banheiro ou foi abordada dentro do terminal e acabou sequestrada para o tráfico?

A resposta foi direta: não.

“A história dos sumidouros é uma lenda urbana”, afirmou Danny durante a nossa conversa. Segundo ela, existe uma confusão importante entre o fato de uma vítima de tráfico humano passar por um aeroporto e a ideia de que essa pessoa tenha sido capturada aleatoriamente dentro dele. “Qual é o papel do aeroporto aqui? De trânsito da vítima. São pessoas traficadas em trânsito nos aeroportos, não traficadas nos aeroportos”, explicou.

Essa diferença é fundamental. O tráfico de pessoas é um crime real e gravíssimo, mas sua dinâmica costuma ser muito menos cinematográfica do que aquela retratada em vídeos virais. A legislação brasileira define o crime de forma ampla, incluindo ações como aliciar, recrutar, transportar, transferir, alojar ou acolher alguém mediante ameaça, violência, coação, fraude ou abuso com finalidade de exploração. A atual tipificação do crime no artigo 149-A do Código Penal foi introduzida pela Lei 13.344, de 2016. Planalto

Na prática, Danny explicou que muitas vítimas não são arrastadas à força para dentro de um carro ou retiradas de um banheiro. Elas podem aceitar viajar porque foram enganadas. Uma oportunidade de trabalho no exterior, uma promessa de ganhos muito superiores aos que a pessoa conseguiria no Brasil, um relacionamento construído pela internet ou até uma indicação feita por alguém conhecido podem ser utilizados no processo de aliciamento. A pessoa concorda com a viagem, mas isso evidentemente não significa que tenha concordado com a exploração que encontrará depois.

Um ponto interessante levantado por Danny é justamente a relação de confiança. O traficante nem sempre é aquele desconhecido com aparência suspeita que segue uma mulher pelos corredores de um aeroporto. Pode ser alguém conhecido, uma pessoa apresentada por amigos ou alguém que passou meses construindo credibilidade antes de fazer uma proposta. Essa realidade é muito menos chamativa para um vídeo nas redes sociais, mas é justamente por isso que precisa ser discutida.

E as placas nos banheiros dos aeroportos?
Outro argumento frequentemente usado nas redes para sustentar a história dos “sumidouros” são as placas de combate ao tráfico humano instaladas em aeroportos, inclusive dentro de banheiros. O raciocínio costuma ser: “Se existe uma placa falando sobre tráfico humano aqui, então é porque pessoas são sequestradas neste lugar”. Mas uma coisa não comprova a outra.

O aeroporto é um ponto importante de circulação de pessoas e pode fazer parte do deslocamento de uma vítima. Campanhas nesses locais ajudam funcionários e passageiros a reconhecer sinais de exploração e também podem oferecer à própria vítima uma oportunidade de encontrar informações e pedir ajuda. A existência desses avisos, portanto, não significa que mulheres estejam sendo escolhidas aleatoriamente dentro de banheiros para serem sequestradas.

Essa interpretação também aparece em uma manifestação da ASBRAD — Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude sobre a narrativa dos chamados sumidouros. A entidade chama atenção para o risco de apresentar o tráfico humano de maneira sensacionalista e reducionista, como se as vítimas fossem necessariamente sequestradas por desconhecidos em espaços públicos e desaparecessem repentinamente.

Segundo o posicionamento divulgado pela ASBRAD, o tráfico costuma envolver situações como aliciamento, criação de confiança, falsas promessas de trabalho ou oportunidades, relações afetivas e familiares, dependência e vulnerabilidade. A entidade ressalta que o aeroporto pode fazer parte do deslocamento da vítima, mas isso não significa que seja necessariamente ali que o crime começou.

Há ainda uma informação relevante nesse posicionamento. Segundo a ASBRAD, após um questionamento feito à Polícia Federal, foi informado que não havia inquérito aberto no Brasil envolvendo tráfico de pessoas ocorrido por meio de sequestro em aeroporto. A própria resposta faz a ressalva correta: não é possível afirmar que nunca tenha ocorrido episódio semelhante em algum lugar do mundo, mas essa situação fugiria do modelo mais usual identificado no tráfico de pessoas.

O perigo de transformar qualquer situação estranha em “quase fui traficada”
Existe outro problema quando vídeos desse tipo se multiplicam. Se toda abordagem estranha em um aeroporto, toda pessoa que olha repetidamente para uma mulher ou todo funcionário que pede para um passageiro acompanhá-lo passa a ser apresentado como uma “tentativa de tráfico humano”, o termo começa a perder significado.

Isso não quer dizer que um viajante deva ignorar comportamentos suspeitos. Muito pelo contrário. Se alguém se apresenta como funcionário e pede que você vá até outro local, é perfeitamente razoável confirmar a informação em um balcão oficial da companhia ou com a administração do aeroporto antes de acompanhá-lo. O problema está em transformar automaticamente uma experiência estranha em uma tentativa comprovada de tráfico sem investigação, denúncia ou qualquer outro elemento que sustente essa conclusão.

A ASBRAD chama esse efeito de banalização dos alertas. Quando histórias sem comprovação, situações isoladas e interpretações pessoais passam a circular como se fossem fatos estabelecidos, pode surgir uma espécie de fadiga ou descrédito. E o resultado pode ser exatamente o contrário daquilo que se pretendia: as pessoas passam a não saber mais diferenciar uma orientação séria de uma história produzida para viralizar.

Enquanto uma mulher está preocupada em encontrar uma suposta porta secreta no banheiro do aeroporto, talvez esteja deixando de observar riscos muito mais concretos: aquela proposta de emprego excepcional no exterior sem contrato claro, alguém que oferece passagem e hospedagem sem explicar exatamente as condições, uma pessoa querendo controlar seus documentos, um relacionamento virtual que rapidamente passa a envolver dinheiro e deslocamento ou alguém conhecido pressionando-a a aceitar uma oportunidade sobre a qual existem poucas informações.

Talvez a frase mais importante do posicionamento da ASBRAD seja justamente esta: “alertar não é produzir pânico”.

É também a conclusão que ficou para mim depois da conversa com Danny. Mulheres devem viajar sozinhas? Claro que sim. Devem tomar cuidados? Também. Segurança precisa fazer parte do planejamento de qualquer viajante, homem ou mulher. Mas informação de qualidade serve justamente para permitir que uma pessoa viaje mais preparada, e não para convencê-la de que existe um sequestrador esperando atrás da porta de cada banheiro de aeroporto.

O tráfico humano existe, destrói vidas e precisa ser enfrentado com seriedade. E talvez justamente por isso seja tão importante retirar dele a camada de sensacionalismo. Quanto melhor entendermos como o crime realmente acontece, maiores serão as chances de reconhecer seus sinais, proteger potenciais vítimas e direcionar nossa atenção para onde o perigo efetivamente está.

    Compartilhar
    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

    <!– taboola

    /taboola –>

    Mais Recentes