TSE derruba das redes sociais vídeo que mostra jovens presos com camiseta do PT

Policiais são acusados de obrigar suspeitos de tráfico a vestirem camiseta pró-Lula

Policiais são acusados de obrigar suspeitos de tráfico a vestirem camiseta pró-Lula

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a remoção do vídeo que mostra suspeitos de tráfico de drogas vestindo camisetas alusivas à campanha de Lula antes de serem levados à delegacia em Piracicaba (SP). Policiais militares que atuaram na ação, na quarta-feira (21), são acusados de obrigar os jovens a colocarem as camisas.

“O conteúdo utiliza episódio policial específico para apresentar como fato a existência de relação entre o Partido dos Trabalhadores e a criminalidade, além de atribuir aos detidos preferência eleitoral que não se encontra demonstrada”, citou a ministra do TSE Estela Aranha, em decisão na noite de quinta (22).

O pedido ao TSE foi feito pela coligação “Brasil Pronto Pra Mais”, que apoia a campanha do presidente Lula.

A chegada dos detidos à delegacia foi gravada, e a imagem, compartilhada pelo senador eleito Guilherme Derrite (PP).

Em nota, Derrite afirmou que o objetivo da publicação foi chamar a atenção para o aliciamento de jovens pelo tráfico de drogas e que não fez qualquer menção às camisetas utilizadas pelos envolvidos.

No momento da publicação desta reportagem, o vídeo já havia sido removido dos perfis do senador nas redes sociais.

Suspeitos de tráfico de drogas foram apresentados na delegacia de Piracicaba com camisetas do PT — Foto: Reprodução/Redes sociais

PMs podem responder por quatro crimes

A Polícia Civil registrou boletim de ocorrência com quatro crimes que os policiais militares podem responder. Entre os crimes tipificados no boletim de ocorrência constam:

  • Ameaça, conforme artigo 147 da legislação
  • Constrangimento ilegal, descrito no artigo 146 do Código Penal
  • Abusos de autoridade, um por constranger preso ou detento mediante violência e grave ameaça
  • Abuso de autoridade por invadir ou adentrar em imóvel à revelia da da vontade do ocupante

Ainda segundo o delegado da Polícia Civil, Alex Adami, o caso será investigado por inquérito penal militar pela Corregedoria da PM, porque os acusados integram a corporação e as denúncias ocorreram durante exercício das funções dos militares.

O g1 consultou o advogado criminalista e professor da pós-graduação em direito penal da PUC-Campinas (SP), João Paulo Sangion, para saber se a Corregedoria da PM pode alterar a natureza dos crimes registrados pela Polícia Civil ao longo da investigação.

O advogado explica que o contexto é complexo e que as Justiças, comum e militar, podem ter competências divididas. “Antes de tudo, haverá uma investigação pela Corregedoria da PM. Entretanto, há crimes comuns que são atraídos pela Justiça Militar, além do crime de abuso de autoridade, já previsto”, especificou Sangion.

Segundo o especialista, a Corregedoria da PM deve investigar, especificamente, as condutas disciplinares dos militares, embora possa haver alguma divergência jurisprudencial, “acerca da competência para o processo e julgamento do crime de abuso de autoridade, se cabe à Justiça comum ou a militar”, acrescentou.

Policiais são acusados de obrigar suspeitos de tráfico a vestirem camiseta de Lula durante abordagem no interior de SP e PM investiga — Foto: Arte/g1

Sangion ressalta que a Lei n. 13.491/2017, em vigor a partir deste outubro daquele ano, ampliou a competência da Justiça Militar. “Na medida em que não são apenas os crimes que sejam concomitantemente previstos no Código Penal Militar e na legislação penal comum que, em virtude do princípio da prevalência da lei especial sobre a lei geral, atrairão a competência da Justiça Militar”, esclareceu.

“Ademais, o mesmo normativo desloca para a Justiça Castrense (Militar) qualquer crime previsto na Legislação Penal Comum (Código Penal e Leis Esparsas) desde que praticado por militar em serviço ou no exercício da função”, completou.

PM instaurou procedimento para investigar caso

Moradores, familiares e militantes afirmam que os detidos não usavam as roupas no momento da abordagem e acusam os agentes de forjar a situação. A Polícia Militar informou que instaurou procedimento para investigar o caso.

O caso ganhou repercussão após a divulgação de imagens da chegada dos detidos à delegacia.

O PT acionou a Procuradoria-Geral da República para pedir abertura de investigação, a Ouvidoria das Polícias pediu o afastamento dos agentes envolvidos e o Ministério da Justiça cobrou informações dos órgãos de segurança de São Paulo.

⬇️ Abaixo, o g1 reuniu em tópicos o que se sabe e o que falta saber sobre o caso.

✅ O que se sabe até agora

📅 Cronologia do caso

  • 21 de outubro: dois adultos são presos e um adolescente é apreendido durante ocorrência em Piracicaba.
  • 21 de outubro: suspeitos chegam à delegacia usando camisetas alusivas à campanha de Lula; imagens são divulgadas nas redes sociais.
  • 22 de outubro: testemunhas, familiares, militantes e a deputada Professora Bebel denunciam que as camisetas teriam sido colocadas pelos policiais.
  • 22 de outubro: a PM informa que abriu procedimento para apurar as denúncias.
  • 22 de outubro: a Ouvidoria das Polícias pede o afastamento dos agentes envolvidos.
  • 22 de outubro: o Ministério da Justiça cobra informações e providências dos órgãos de segurança de São Paulo.

Suspeitos de tráfico de drogas foram apresentados na delegacia de Piracicaba com camisetas do PT — Foto: Reprodução

❓ O que ainda falta saber

Os suspeitos realmente usavam as camisetas antes da abordagem?

A principal divergência do caso envolve a origem das camisetas. Testemunhas, familiares, militantes e um dos suspeitos afirmam que não. Já a PM diz que a denúncia recebida pelo 190 relatava que os suspeitos trajavam camisetas alusivas ao então candidato à Presidência da República.

O que mostram as câmeras corporais e demais registros?

O Ministério da Justiça pediu a preservação de imagens de câmeras corporais, viaturas, videomonitoramento e gravações das chamadas ao 190. O conteúdo ainda não foi divulgado.

Houve agressões durante a ocorrência?

Familiares, testemunhas e militantes relatam agressões físicas e abusos durante a abordagem. As denúncias fazem parte das apurações solicitadas pela Ouvidoria e investigadas pela PM. Em depoimento, o jovem de 21 anos que afirmou que os PMs obrigaram ele a vestir a camiseta em alusão à campanha de Lula afirmou que não sofreu violência.

Militantes relatam como PM tomou camisetas pró-Lula e pedido por três peças

Militantes relatam como PM tomou camisetas pró-Lula e pedido por três peças

O áudio da chamada ao 190 divulgado por vereador é verdadeiro?

O vereador Renan Paes (PL), de Piracicaba, divulgou um áudio que, segundo ele, seria da denúncia recebida pela PM via 190, e que na ligação o denunciante informa que os suspeitos estariam de camiseta branca e que ele acha “que é do Lula”. A polícia não confirma se o áudio é verdadeiro.

A nota oficial da PM sobre o caso informa que a ocorrência “teve início após denúncia recebida pelo telefone 190, registrada em áudio, na qual o denunciante relatou que três indivíduos estariam comercializando drogas e trajando camisetas alusivas ao então candidato à Presidência da República, além de informar que um deles estaria armado.”

Os policiais envolvidos serão afastados?

A Ouvidoria da Polícia pediu o afastamento imediato dos agentes do serviço operacional, mas ainda não há informação sobre eventual decisão da Corregedoria a respeito do pedido.

Qual será a conclusão das investigações?

A Polícia Militar, a Corregedoria, a Ouvidoria, o Ministério Público Eleitoral e os órgãos acionados pelo Ministério da Justiça ainda realizam ou aguardam apurações sobre as denúncias.

PMs são acusados de obrigar suspeitos a usar camisetas do PT durante ação em Piracicaba

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Source: g1 > Política