
De Wuhu, China
Não é difícil encontrar SUVs chineses que lembram modelos consagrados de marcas europeias. O iCAUR V27, primeiro veículo da nova divisão do Grupo Chery a chegar ao Brasil em 2027, é mais um exemplo. Com carroceria quadrada, faróis circulares e proporções robustas, ele tem uma semelhança evidente com o Land Rover Defender. Mas foi depois de colocar o carro em um circuito de lama na China que comecei a perceber suas características mais interessantes.
Estou no país a convite da Omoda & Jaecoo Brasil, acompanhando o Chery International User Summit 2026, evento que reúne novidades das marcas Omoda, Jaecoo, Lepas e iCAUR, além da AiMOGA, divisão de robótica e inteligência artificial do grupo.
Durante a programação, tive a oportunidade de conhecer o V27 por dentro e por fora, além de conduzir uma versão com tração integral em um circuito fora de estrada. Havia chovido no dia anterior e o percurso estava bastante escorregadio, uma condição interessante para avaliar um SUV que pretende combinar conforto familiar com capacidade de enfrentar terrenos difíceis.
O resultado me surpreendeu positivamente. Mais do que a potência ou a aparência aventureira, gostei especialmente da maneira como o V27 responde aos comandos do motorista, mesmo quando a aderência dos pneus está longe do ideal.
Visual lembra o Defender, mas tem identidade própria
A inspiração no Defender fica evidente logo no primeiro contato. O V27 tem capô alto, carroceria de linhas retas, janelas amplas e uma dianteira praticamente vertical.
A própria iCAUR faz referência aos veículos clássicos com o conceito Classic Never Fades, algo como “o clássico nunca saem de moda”. A proposta é reinterpretar características de utilitários tradicionais utilizando tecnologias mais recentes.
Na dianteira, os faróis circulares de LED ficam integrados a uma grade relativamente fechada. O carro também possui um gancho de recuperação que, diferentemente de elementos meramente decorativos encontrados em alguns SUVs, tem função prática.
Na unidade que conheci, as rodas eram de 21 polegadas, acompanhadas por pneus voltados à utilização em diferentes tipos de terreno. Gostei bastante do desenho do conjunto, que combina com as proporções da carroceria.
Outro detalhe interessante está nos estribos laterais, divididos em seções dianteira e traseira. Eles ajudam no acesso a um veículo que tem aproximadamente 1,89 metro de altura.
O V27 mede cerca de 1,98 metro de largura e 2,91 metros de entre-eixos.
Na China, a ficha técnica informa 5,055 metros de comprimento considerando os elementos externos da carroceria, incluindo a região traseira. Em outras apresentações, a marca utiliza medidas próximas de 4,90 metros, referentes ao porte do veículo sem determinados componentes externos.
Estamos falando, portanto, de um SUV grande, maior que o GWM Tank 300 e com dimensões próximas às de utilitários de categoria superior.
Na traseira, o desenho mantém a aparência quadrada e a tampa permite acesso a um compartimento de bagagens bastante amplo. A fabricante declara 715 litros de capacidade, que podem chegar a 1.818 litros com os bancos traseiros rebatidos, conforme a configuração.
Uma particularidade da unidade utilizada na apresentação era a ausência de estepe. Para um veículo com proposta fora de estrada, considero esse um ponto que merece atenção. A presença do equipamento na configuração brasileira ainda dependerá da definição das versões.
Interior combina espaço, conforto e equipamentos
Por dentro, o V27 procura equilibrar a aparência robusta com uma cabine bastante equipada.
O painel tem desenho horizontal e utiliza um quadro de instrumentos digital de 8,8 polegadas, acompanhado por uma central multimídia de aproximadamente 15,4 polegadas.

Há carregador de celular por indução, seletor dos modos de condução e um sistema de som Pioneer, cuja qualidade me agradou durante o contato com o veículo.
Um detalhe que chamou minha atenção foi a presença de regulagem de altura para o cinto de segurança dianteiro. Parece algo simples, mas é um equipamento que vem desaparecendo de muitos automóveis, inclusive de modelos caros. No V27, considero um acerto.

Os materiais internos também ajudam a construir uma boa impressão. A cabine apresenta superfícies revestidas, detalhes metálicos e comandos distribuídos de maneira relativamente convencional para um veículo com tanta tecnologia.
Na parte traseira, há saídas de ar-condicionado, conexões USB e bancos com aquecimento na configuração apresentada.
O teto panorâmico é dividido em duas seções, separadas por uma estrutura que também abriga componentes do sistema de áudio. Visualmente, gostei da solução.
Outro aspecto interessante é o aproveitamento do espaço. Os 2,91 metros de entre-eixos permitem acomodar os ocupantes sem que a cabine pareça apertada. Há ainda pequenos compartimentos, gavetas e suportes laterais para objetos, incluindo ganchos com capacidade anunciada de até 3 kg atrás dos bancos.
A apresentação geral é compatível com a proposta de um SUV familiar de grande porte, embora os equipamentos da versão brasileira ainda não estejam definidos.
Motor a gasolina gera energia, mas não movimenta as rodas
Antes de falar da experiência ao volante, é importante entender o funcionamento do V27.
O SUV utiliza uma arquitetura chamada REEV (Range-Extended Electric Vehicle), ou veículo elétrico com extensor de autonomia.
Diferentemente de um híbrido convencional, no qual o motor a combustão pode participar diretamente da movimentação das rodas, o V27 utiliza os motores elétricos para produzir a tração. O propulsor a gasolina funciona como gerador, fornecendo energia ao sistema e ajudando a manter a bateria carregada.
Isso significa que a experiência de condução se aproxima daquela de um elétrico, mas o veículo também possui tanque de combustível e pode continuar a viagem sem depender exclusivamente de uma estação de recarga.
O sistema utiliza um motor 1.5 turbo a gasolina como gerador de energia.
Na China, a versão de entrada tem tração traseira e motor elétrico de 1 85 kW, aproximadamente 251 cv, com 300 Nm de torque.
Já a configuração com tração integral adiciona um segundo motor elétrico, elevando a potência conjunta para 335 kW, aproximadamente 455 cv, e o torque para 505 Nm, ou cerca de 51,5 kgfm.
Segundo a ficha técnica chinesa, o modelo de tração traseira acelera de 0 a 100 km/h em aproximadamente 8,4 segundos, enquanto o de tração integral pode cumprir a mesma prova em cerca de 5,5 segundos. A configuração divulgada anteriormente para o Brasil teve tempo anunciado de 5,9 segundos.
Essas diferenças mostram por que é importante aguardar a homologação das versões nacionais antes de estabelecer os números definitivos de desempenho.
Autonomia pode chegar a 1.200 km
O V27 também chama atenção pelas diferentes capacidades de bateria apresentadas para sua linha.
O SUV quadradão traz três configurações de baterias: 20,4 kWh, 34,3 kWh e uma versão de autonomia ampliada com 51,2 kWh.
A bateria de 34,3 kWh é utilizada em versões já comercializadas no mercado chinês, com autonomia combinada anunciada de até 1.200 km pelo ciclo CLTC.
Na lama, o V27 mostrou mais do que aparência
Foi no circuito fora de estrada que o V27 realmente me surpreendeu.
A chuva do dia anterior deixou o terreno com bastante lama, e havia pontos em que os pneus perdiam aderência com facilidade. Não era uma situação de rodovia ou uma simples estrada de terra batida.
Utilizei uma versão com tração integral e modos específicos de condução para terrenos difíceis, incluindo uma configuração voltada à lama.
O carro escorregou em alguns trechos, como seria esperado, mas o sistema de tração conseguiu administrar bem a distribuição de força. Em nenhum momento tive a impressão de que o veículo estava simplesmente tentando vencer os obstáculos pela potência.
O mais interessante foi perceber como a direção se comportava nessas condições.
Mesmo quando o carro saía ligeiramente da trajetória, conseguia apontá-lo para onde queria e corrigir o movimento utilizando o volante e o acelerador. As respostas foram suficientemente precisas para transmitir confiança.
Isso merece destaque porque estamos falando de um SUV grande, pesado e equipado com um conjunto elétrico bastante potente.
A entrega imediata de torque dos motores elétricos pode ser uma vantagem fora de estrada, mas também exige uma calibração cuidadosa. Se o acelerador responder de maneira brusca, a perda de aderência pode acontecer com mais facilidade.
No V27, gostei da maneira como essa força foi administrada durante o percurso.
A suspensão também merece elogios. A sensação dentro do veículo era de um conforto maior do que os movimentos externos poderiam sugerir.
Não estou dizendo que o V27 terá o mesmo desempenho de um utilitário desenvolvido exclusivamente para trilhas extremas. Também não pude avaliar situações como travessias profundas, obstáculos de pedra ou uso prolongado em terrenos muito inclinados.
Mas, dentro das condições que encontrei, ele demonstrou uma capacidade fora de estrada convincente.
Segurança inclui assistentes e versões com LiDAR
O pacote tecnológico também é um dos argumentos da iCAUR.
Na China, o V27 é oferecido com diferentes níveis de assistência à condução, incluindo sistemas conhecidos como Falcon 500 e Falcon 700.
As configurações mais completas podem utilizar sensor LiDAR, tecnologia que emprega feixes de laser para identificar obstáculos e construir uma representação tridimensional do ambiente ao redor do veículo.
Dependendo da versão, o conjunto inclui controle de cruzeiro adaptativo, assistência de manutenção em faixa, monitoramento do entorno e recursos voltados à condução assistida.
A fabricante também anuncia sete airbags e diferentes sistemas eletrônicos de estabilidade e segurança.
Vale a compra?
Depois de dirigir o iCAUR V27 na China, fiquei com a impressão de que ele tem atributos para conquistar consumidores brasileiros interessados em SUVs de aparência aventureira, mas que não querem abrir mão de conforto e tecnologia.
O desenho certamente será um dos pontos mais comentados. A semelhança com o Land Rover Defender é evidente, e cada comprador terá sua opinião sobre isso.
Particularmente, gostei das proporções, das rodas de 21 polegadas e da apresentação interna.
Mas meu principal elogio vai para o funcionamento da tração integral e para o acerto da direção e da suspensão.
Foi interessante colocar um SUV com propulsão elétrica em um terreno de muita lama e perceber que ele conseguia administrar a força e manter respostas previsíveis, mesmo quando a aderência diminuía.
O V27 também tem uma vantagem potencial no sistema REEV. A possibilidade de dirigir utilizando motores elétricos, mas contando com um gerador a gasolina para ampliar o alcance, pode fazer sentido para quem viaja por regiões com pouca infraestrutura de recarga.
Ainda há questões importantes a esclarecer. Quero conhecer o consumo real, a autonomia em condições brasileiras e o comportamento da suspensão no asfalto irregular que encontramos por aqui.
A presença de estepe, os equipamentos de cada versão e o preço também serão decisivos.
A iCAUR está prevista para iniciar suas vendas no Brasil entre março e abril de 2027, justamente com o V27. Depois chegarão os menores V25 e V23, ampliando a família de SUVs da marca.
Se a fabricante conseguir preservar o comportamento apresentado na China e oferecer uma configuração adequada ao mercado brasileiro, o V27 poderá se tornar uma alternativa interessante a modelos como GWM Tank 300 e Jetour T2.
Por enquanto, o que posso afirmar é que o carro me surpreendeu positivamente onde eu menos esperava: na lama. Não apenas por conseguir atravessar o circuito, mas pela maneira como transmitiu controle e conforto durante a experiência.
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