Hungria além de Budapeste: a rota dos vinhos que poucos conhecem
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Hungria além de Budapeste: a rota dos vinhos que poucos conhecem

Quando se fala em turismo na Hungria, Budapeste naturalmente ocupa o centro das atenções, mas existe uma outra Hungria que ainda passa despercebida por muitos brasileiros: a das regiões produtoras de vinho. O país possui uma tradição vitivinícola secular e diferentes regiões produtoras espalhadas pelo território. Em algumas delas, o vinho deixou de ser apenas um produto local e se transformou também em experiência turística, com visitas a vinhedos, degustações, caves históricas, gastronomia e pequenos vilarejos que podem ser incluídos em uma viagem pelo país.

Para quem já conhece Budapeste ou pretende permanecer mais dias na Hungria, conhecer uma dessas regiões pode ser uma maneira completamente diferente de descobrir o destino.

Tokaj, a grande estrela
Entre todas as regiões vinícolas húngaras, nenhuma tem tanta projeção internacional quanto Tokaj, a cerca de 230 quilômetros de Budapeste, no nordeste do país. A Paisagem Cultural Histórica da Região Vinícola de Tokaj foi declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO em 2002, reconhecimento que abrange vinhedos, pequenas cidades e uma impressionante rede de caves subterrâneas. Segundo a própria UNESCO, a tradição de produção de vinho ali existe há pelo menos mil anos.

O grande responsável pela fama é o Tokaji Aszú, vinho doce produzido a partir de uvas afetadas pela chamada podridão nobre, provocada pelo fungo Botrytis cinerea. Em determinadas condições climáticas, o processo faz a uva perder água e concentrar açúcar, acidez e aromas. A geografia explica o fenômeno: Tokaj fica em área de origem vulcânica, próxima aos rios Bodrog e Tisza, e a combinação de umidade, neblina e outonos longos cria o ambiente ideal.

Vale desfazer um engano comum: Tokaj não produz apenas vinho doce. A região tem excelentes brancos secos, sobretudo os elaborados com as variedades tradicionais Furmint e Hárslevelű, que nos últimos anos ganharam espaço nas cartas de restaurantes europeus.

E visitar a região não é entrar numa vinícola, provar três taças e ir embora. O passeio envolve os vilarejos, os vinhedos e principalmente as caves escavadas na rocha, muitas com séculos de uso contínuo. A área reconhecida pela UNESCO inclui localidades como Tokaj, Mád, Tarcal, Tállya, Bodrogkeresztúr e Sárospatak.

Eger e o Sangue de Touro
A cerca de duas horas de Budapeste, no norte do país, Eger tem uma ligação forte com os tintos. É de lá o nome mais conhecido da vitivinicultura húngara depois do Tokaji: o Egri Bikavér, que se traduz como Sangue de Touro de Eger. Não corresponde a uma única variedade de uva, é um vinho de corte, produzido com a combinação de diferentes castas dentro das regras da denominação.

Para o turista, o ponto mais curioso é o Szépasszony-völgy, o Vale das Mulheres Bonitas. O vale concentra dezenas de caves lado a lado, e a graça está justamente em caminhar de uma adega para outra, provando produtores diferentes ao longo da tarde. Funciona como uma atração em si, bem distinto da visita convencional a uma única vinícola.

Eger tem ainda outra vantagem: não depende só do enoturismo. A cidade tem centro histórico preservado, castelo e arquitetura barroca, o que permite combinar cultura, história e vinho no mesmo dia. Para quem tem poucos dias na Hungria, é a região que rende mais por hora de viagem.

Villány, a rota dos grandes tintos
No extremo sul, perto da fronteira com a Croácia, Villány é a resposta húngara para quem gosta de tinto encorpado. A região tem tradição consolidada com Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon e Merlot, além de castas locais menos conhecidas por aqui.

Villány e a vizinha Siklós formam um dos principais corredores de enoturismo do país, com pequenos produtores, adegas familiares, restaurantes e vilarejos cercados por vinhedos. É a rota mais adequada para quem já vem de carro, e combina bem com uma parada em Pécs, uma das cidades mais bonitas do interior húngaro.

Afinal, existe uma rota dos vinhos da Hungria?
Não existe uma única estrada que possa ser chamada assim. O que existe são regiões e circuitos distintos, e a escolha depende do tipo de viagem que você quer fazer. Tokaj é para quem busca a região de maior projeção internacional e uma paisagem cultural reconhecida pela UNESCO. Eger combina turismo histórico com vinho e cabe até num bate e volta a partir da capital. Villány e Siklós atendem os apaixonados por tintos e quem tem mais dias e disposição para dirigir.

Nenhuma delas é uma novidade inventada para atrair turista. Em Tokaj há registros documentados de produção desde pelo menos o século XVI, e em 1737 a região recebeu uma delimitação oficial por decreto real, tornando-se um dos primeiros exemplos históricos de área produtora formalmente demarcada no mundo, antes mesmo de várias denominações francesas. O que mudou foi a função: caves que existiam apenas para produzir e armazenar passaram a receber visitantes, e os vinhedos viraram paisagem turística.

A Hungria que o brasileiro ainda não descobriu
Na maioria dos roteiros de Europa Central que chegam até mim, a Hungria aparece como três dias em Budapeste antes de seguir para Viena, Bratislava ou Praga. É pouco. Ao acrescentar uma região vinícola, a viagem deixa de mostrar apenas a Hungria monumental da capital e passa a revelar cidades pequenas, produtores locais e uma gastronomia que quase ninguém associa ao país.

Para quem gosta de vinho, ou simplesmente procura experiências fora do circuito óbvio, as rotas húngaras provam que há muito mais para conhecer depois que se atravessa a última ponte sobre o Danúbio.

Dica do Vitor
Em mais de 21 anos montando roteiros e viajando de forma profissional, aprendi que enoturismo mal planejado vira frustração, e na Hungria isso é ainda mais verdadeiro. Três recomendações práticas.

Primeiro, escolha a época. Setembro e outubro são os melhores meses, com a vindima em curso e as paisagens no auge. A colheita das uvas do Aszú, em Tokaj, acontece ainda mais tarde, entre o fim de outubro e novembro, quando a botrytis já fez seu trabalho. No inverno, muitas adegas pequenas simplesmente fecham.

Segundo, agende com antecedência. Diferente de Mendoza ou do Vale dos Vinhedos, boa parte dos produtores húngaros é familiar e não recebe visitante sem aviso. Um e-mail com duas ou três semanas de antecedência resolve, e quase sempre garante uma degustação conduzida pelo próprio dono, o que muda completamente a experiência.

Terceiro, e mais importante, não dirija. A lei húngara é de tolerância zero para álcool ao volante, sem exceção. Se a ideia é provar vinho, contrate um motorista local, vá de trem até Eger ou Tokaj (as duas têm conexão direta a partir de Budapeste) ou faça o que fazemos nos nossos grupos: transporte próprio e ninguém com a responsabilidade de segurar a taça pela metade. Em viagem de vinho, logística boa é o que separa a degustação do arrependimento.

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