
Na manhã do último 7 de setembro, enquanto boa parte do Brasil aproveitava o feriado da Independência sob sol, Bom Jardim da Serra acordou com -6,1°C. Logo atrás vieram São Joaquim, com -5,9°C, e Urupema, com -5,4°C, numa madrugada em que neve e chuva congelada foram confirmadas na região. Não foi coincidência. Quando o assunto é frio de verdade, o mapa do Brasil se afunila num pedaço específico de Santa Catarina, e são quase sempre as mesmas três cidades que brigam pelo topo do pódio.
Só que apontar a campeã não é tão simples quanto parece. O ranking muda conforme a régua usada: temperatura média anual, média das mínimas no inverno ou recorde absoluto. E existe uma curiosidade que torna essa disputa ainda mais saborosa: Urupema e Bom Jardim da Serra já fizeram parte do território de São Joaquim. Ou seja, o pódio inteiro nasceu do mesmo município.
Urupema, a capital oficial do frio
Urupema tem algo que nenhuma outra cidade brasileira pode reivindicar: desde 2021, uma lei federal lhe garante o título de Capital Nacional do Frio. E a fama tem base. O município tem a maior altitude média de Santa Catarina, cerca de 1.425 metros, soma em torno de 50 geadas por ano e costuma ver neve algumas vezes a cada inverno. A temperatura média anual fica perto dos 14°C, e a área urbana, encaixada numa espécie de bacia cercada por morros, acumula o ar gelado nas madrugadas de céu limpo. Em junho de 2025, a cidade registrou -8,2°C, a menor marca do ano no estado.
O cartão-postal é o Morro das Torres, a mais de 1.700 metros de altitude, onde o nevoeiro congela ao tocar a vegetação e forma o sincelo, uma crosta fina de cristais que cobre arbustos, cercas e antenas. Perto dali fica a Cascata que Congela, uma queda d’água de 13 metros que, nos dias mais rigorosos, se transforma numa cortina de pingentes de gelo.
São Joaquim, o frio que virou marca
Durante décadas, falar em frio no Brasil era falar em São Joaquim. A cidade tem áreas acima dos 1.300 metros, está entre as localidades com maior ocorrência de neve no país e, em alguns pontos mais altos, a média anual fica na casa dos 12°C. No último feriado de 7 de setembro, a estação oficial do município marcou -4°C e superou o recorde para a data, que vinha de 1973, enquanto os pontos mais gelados da cidade chegaram a -5,9°C.
O que diferencia São Joaquim das vizinhas é a forma como transformou o clima em identidade. O frio de altitude ajudou a criar os vinhos finos que colocaram Santa Catarina no mapa do enoturismo, e a cidade tem a estrutura turística mais desenvolvida das três, com vinícolas, opções variadas de hospedagem e uma agenda de inverno que atrai visitantes de todo o país.
Bom Jardim da Serra, a dona da estrada mais famosa
Fechando o pódio, Bom Jardim da Serra fica a cerca de 1.245 metros de altitude e vive aparecendo nas manchetes de temperatura negativa. Julho tem média próxima de 10,5°C, e geadas severas fazem parte da rotina do inverno. Só em 2026, a cidade já cravou a menor temperatura de Santa Catarina em várias manhãs, incluindo -6,1°C em julho, a mínima do Brasil naquele dia, e a mesma marca no feriado de setembro, quando deixou São Joaquim e Urupema para trás.
Além do termômetro, Bom Jardim da Serra guarda a Serra do Rio do Rastro, um dos cenários rodoviários mais fotografados do Brasil, com suas curvas desenhadas no paredão da serra. No inverno, não é raro o mirante lá no alto amanhecer branco de geada, com vista para um mar de nuvens.
Afinal, qual é a mais fria?
Depende da pergunta. Se o critério for frequência de mínimas extremas, altitude e título oficial, Urupema larga na frente. Mas a metodologia também pesa: há estações que medem a temperatura mais perto do solo, onde o frio é mais intenso, o que ajuda a explicar por que os números nem sempre conversam entre si. Se a régua for o dia a dia do inverno, São Joaquim e Bom Jardim da Serra entram forte na briga e, em episódios pontuais como o do último feriado, trocam de posição sem cerimônia.
E há uma surpresa fora de Santa Catarina. Um levantamento baseado nas Normais Climatológicas do INMET mostra que, considerando apenas a média das mínimas de julho entre as estações analisadas, quem aparece com o menor valor é Campos do Jordão, em São Paulo, com 4,6°C. São Joaquim, por sua vez, tem a menor média das máximas de julho, apenas 14,5°C. Traduzindo: em Campos as madrugadas pesam, mas na serra catarinense o frio não dá trégua nem à tarde.
O Brasil pode ser tropical, mas existe um canto do mapa onde geada, termômetro negativo e até neve entram no calendário todo ano. E as três protagonistas dessa história estão lado a lado, em Santa Catarina.
Dica do Vitor
Depois de quase duas décadas planejando viagens, aprendi uma regra que vale ouro para a serra: neve não se agenda. Por isso, eu nunca monto um roteiro na Serra Catarinense apostando tudo nela. O inverno, entre junho e agosto, é a época mais certeira para o frio intenso, mas temperaturas negativas podem aparecer de abril a novembro. Minha sugestão é fazer de São Joaquim a base, pela estrutura de hospedagem e pelas vinícolas, e distribuir os dias com calma. Reserve uma manhã bem cedo para o Morro das Torres, em Urupema, onde a entrada é gratuita e o sincelo, quando aparece, dura pouco depois que o sol esquenta. Guarde outra manhã para o mirante da Serra do Rio do Rastro, em Bom Jardim da Serra, e confira as condições da estrada antes de sair, porque gelo na pista e neblina forte podem complicar a subida. Leve roupa em camadas, luva, gorro e meia térmica. E se a neve não vier, abra um vinho de altitude perto da lareira. Garanto que o frio da serra continua valendo cada quilômetro da viagem.
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.
<!– taboola
/taboola –>
Mais Lidas
Source: Turismo


