
O Jetour T1 é um daqueles carros que parece que é, mas não é. Carroceria quadrada, quase 20 cm de vão livre, ângulos de entrada e saída de 28 graus, rodas grandes e uma série de elementos visuais típicos de um SUV preparado para sair do asfalto.
Só existe uma questão: ele não é 4×4.
Passei alguns dias com o T1 para entender se isso realmente faz falta e, principalmente, se o conjunto híbrido plug-in, o espaço interno e a lista de equipamentos justificam colocar o modelo na mesma lista de compras de nomes mais estabelecidos, como GWM Haval H6 e BYD Song Plus.
O carro que avaliei foi o T1 Premium, topo de linha. Na época da gravação, custava R$ 274.900. Atualmente, a própria Jetour anuncia a versão por R$ 264.900, enquanto o Advance aparece por R$ 249.900 em suas ofertas de setembro.
Depois do teste, fiquei com uma impressão bastante clara: o T1 funciona melhor quando você deixa de encará-lo como um jipe e começa a tratá-lo como aquilo que efetivamente é, um SUV grande, confortável e eletrificado para o uso cotidiano.
Primeiras impressões
O desenho é provavelmente o primeiro argumento de compra.
São 4,70 metros de comprimento, 1,97 m de largura, 1,84 m de altura e 2,80 m de entre-eixos. É um carro grande, largo e com presença.

As linhas quadradas inevitavelmente lembram outros SUVs de proposta aventureira. De alguns ângulos, principalmente pela dianteira e pelos elementos das caixas de roda, eu vejo até referências que remetem ao Jeep Renegade, só que em uma escala consideravelmente maior.

Os ângulos de ataque e saída são de 28 graus, e o vão livre fica na casa dos 19 cm. O visual e as medidas, portanto, evocam o fora-de-estrada.
Mas os pneus de uso predominantemente rodoviário e, principalmente, a tração exclusivamente dianteira estabelecem os seus limites.

E eu não vejo isso necessariamente como um problema.
O 4×4 realmente faz falta?
Essa talvez seja a discussão mais interessante sobre o T1.
O carro tem porte, desenho e até informações de inclinação na multimídia que parecem convidar você a buscar uma trilha. Só que não há tração no eixo traseiro.

Para quem realmente pretende enfrentar lama, areia ou terrenos mais exigentes, faz falta.
Para a enorme maioria dos compradores de SUVs com aparência off-road, provavelmente não.
Suspensão é um dos acertos
O T1 pesa aproximadamente duas toneladas, então eu esperava que pudesse cair naquela armadilha de SUVs eletrificados muito pesados, com suspensão excessivamente macia para mascarar a massa.
Não acontece.
Há McPherson na dianteira e multilink atrás, com suspensão independente nas quatro rodas.
No meu uso, achei o acerto confortável sem ficar solto demais.
Na cidade, ele absorveu bem buracos e irregularidades. Na estrada, a carroceria continuou razoavelmente controlada em curvas e mudanças de direção.
Foi uma das coisas que mais gostei no carro. Ele não transmite aquela sensação de “sofá sobre rodas” que ainda encontro em alguns modelos chineses.
315 cv, mas desempenho não é o foco
O sistema híbrido plug-in combina um 1.5 turbo a gasolina de 135 cv e 20,4 kgfm com um motor elétrico de 204 cv e 31,6 kgfm integrado à transmissão DHT de uma marcha.
A potência combinada é de 315 cv, com torque máximo de 52 kgfm.
O 0 a 100 km/h acontece em 8,7 segundos.
Pode parecer pouco diante de 315 cv, mas é preciso lembrar do peso e da proposta.
No uso real, eu nunca achei o T1 lento.
O motor elétrico entrega força imediatamente, as retomadas são boas e há potência suficiente para ultrapassagens sem planejamento excessivo.
Só não espere o tipo de aceleração que os números de potência podem sugerir.
Para mim, é um conjunto voltado muito mais para eficiência e suavidade do que para desempenho.
Mais de 100 km elétricos no meu uso
A bateria tem 26,7 kWh e, segundo o Inmetro, permite rodar 88 km no modo exclusivamente elétrico.
Aqui tive uma surpresa positiva.
Durante o teste, a estimativa de autonomia permaneceu acima dos 100 km em alguns momentos, e meu uso indicava que seria perfeitamente possível ultrapassar a marca oficial em condições favoráveis.

É justamente nessa utilização que, para mim, um híbrido plug-in faz mais sentido.
Se você consegue carregar em casa e percorre 40, 50 ou mesmo 80 km diariamente, existe a possibilidade de passar boa parte da semana usando só eletricidade.
O tanque tem 70 litros, e a autonomia combinada anunciada chega a cerca de 1.200 km.
Durante parte da avaliação, o computador registrou cerca de 14,9 km/l, além de consumo elétrico próximo de 11,7 kWh/100 km. Em um PHEV, gasolina e eletricidade trabalham em proporções diferentes conforme nível de carga, trajeto e modo selecionado, então eu não gosto de olhar apenas um dos números de forma isolada.
Recarga rápida é um diferencial importante
O T1 aceita carregamento em corrente contínua, algo que nem todo híbrido plug-in oferece.
A potência máxima fica na casa dos 40 kW em DC, com recarga de 30% a 80% em cerca de 30 minutos, dependendo das condições. Em AC, o processo é mais lento.
Para mim, porém, a lógica ideal continua sendo carregar em casa durante a noite e começar o dia com a bateria cheia.
É aí que o sistema plug-in passa a fazer mais sentido economicamente.
Interior surpreende pelo espaço
É dentro do T1 que o tamanho externo começa a justificar melhor a compra.
O entre-eixos de 2,80 m deixa bastante espaço para pernas atrás, e a largura da carroceria também ajuda quem viaja no banco traseiro.

Eu consegui me acomodar com muita folga para pernas e cabeça.
Na versão Premium, há teto solar panorâmico, sistema de som Sony, bancos dianteiros elétricos, memória, iluminação ambiente e carregador de celular por indução.

A central multimídia é grande, há Apple CarPlay e Android Auto sem fio, e o acabamento também me agradou.
Grande parte das áreas mais visíveis e tocadas é macia ou emborrachada, com costuras contrastantes.

Não chega ao refinamento de um SUV premium alemão, mas passa uma sensação compatível com o posicionamento do carro.
Câmeras são excelentes
Outro destaque, para mim, é o sistema de câmeras.
O T1 oferece visualização 540 graus, com imagens de boa resolução, visão 3D do carro e possibilidade de selecionar diferentes ângulos.
Em um SUV com quase 2 metros de largura, eu não considero isso perfumaria.
Ajuda bastante em garagens, vagas apertadas e manobras urbanas.
Há ainda uma extensa lista de assistentes de condução, com ACC, frenagem autônoma de emergência, alerta de colisão frontal e traseira, permanência em faixa, monitoramento de ponto cego, alerta de tráfego cruzado e assistente para congestionamentos.

Os alertas me irritaram
E justamente aí aparece um dos pontos de que menos gostei.
O T1 apita demais.
No trânsito de São Paulo, uma moto passando perto, um veículo parando muito próximo atrás ou determinadas situações de faixa são suficientes para disparar avisos sonoros.
O problema não é existir alerta.
É a intensidade e a frequência.
Eu tentei reduzir volumes e ajustar algumas configurações, mas não consegui deixar o sistema tão discreto quanto gostaria.
Isso produz um efeito ruim: quando o carro alerta por tudo, eu começo a ignorar os alertas.
Até o som da seta me pareceu exageradamente alto.
É um detalhe de calibração, mas que interfere bastante na convivência diária.
Isolamento acústico poderia ser melhor
Outro ponto que destoa da intenção mais sofisticada da cabine é o isolamento acústico.
Durante meu teste, percebi ruído externo demais entrando na cabine, sobretudo de motos, buzinas e tráfego urbano.
Não chega a tornar o carro desconfortável.
Mas, por quase R$ 265 mil, e com todo o esforço visual e de acabamento para criar uma atmosfera mais sofisticada, eu esperava um isolamento melhor.
Porta-malas é enorme, mas não há estepe
São 574 litros de porta-malas, um número muito bom para a categoria.
Há abertura elétrica e possibilidade de limitar a altura da tampa, útil para garagens baixas.

O que não existe é estepe.
No lugar dele há apenas kit de reparo.
E aqui, pessoalmente, eu acho uma escolha ruim para o Brasil.
Buraco que rasga a lateral de pneu não é exatamente algo raro por aqui, e nesse caso o selante não resolve.
Vale a compra?
Depois de alguns dias com o carro, eu cheguei a uma conclusão simples: o Jetour T1 funciona melhor quando você não compra a fantasia errada.
Ele parece um carro pronto para atravessar trilhas, mas não é um 4×4 de uso severo.
É um SUV familiar grande, espaçoso, híbrido plug-in e confortável que usa a estética off-road para construir personalidade.
E, visto dessa maneira, eu gostei bastante dele.
Na faixa de preço dele, a comparação inevitável envolve modelos como GWM Haval H6 e BYD Song Plus.
O Haval pode entregar mais desempenho em determinadas versões. O T1 responde com mais espaço, uma bateria generosa, boa autonomia elétrica e um interior bastante completo.
Eu colocaria três ressalvas antes da compra: não há tração integral, o isolamento acústico poderia ser melhor e os alertas eletrônicos são excessivamente invasivos.
Fora isso, encontrei um SUV agradável de dirigir, confortável, espaçoso e extremamente econômico quando utilizado da maneira correta.
Se eu tivesse carregador em casa e precisasse de um carro grande para cidade e viagens, o T1 entraria na minha lista.
Só não compraria esperando encontrar um jipão.
Ele veste roupa de trilha, mas é no asfalto que, para mim, mostra suas melhores qualidades.
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