
Quem passa pela Ponte Carlos, em Praga, percebe rapidamente que existe um ponto onde as pessoas param mais do que nos outros. Tem gente esperando, procurando o ângulo certo e tentando reproduzir praticamente a mesma fotografia. E o motivo está numa imagem feita há quase 40 anos com uma das bandas britânicas mais importantes da história: o Depeche Mode.
A história começa em 1988. No dia 11 de março daquele ano, Dave Gahan, Martin Gore, Andy Fletcher e Alan Wilder fizeram um show histórico em Praga durante a turnê “Music for the Masses”. A atual República Tcheca ainda fazia parte da Tchecoslováquia, então sob o regime comunista, e a apresentação aconteceu pouco mais de um ano antes da Revolução de Veludo, que mudaria completamente a história do país.
Meses depois, o Depeche Mode voltou a Praga para uma sessão de fotos com Anton Corbijn, fotógrafo e diretor holandês que se tornaria fundamental na construção da identidade visual da banda. Eles foram fotografados em diferentes pontos da cidade e uma dessas imagens foi feita exatamente na Ponte Carlos, diante de uma das esculturas do monumento.
E aqui estão duas curiosidades que muita gente não sabe. A primeira é que a fotografia, apesar de ter se tornado extremamente conhecida entre os fãs, não foi capa de nenhum álbum do Depeche Mode. Ela fez parte do trabalho fotográfico de Corbijn com a banda e apareceu posteriormente no livro “Depeche Mode: Stranger s”, lançado em 1990.
A segunda é sobre a própria escultura. Muita gente olha rapidamente e acredita estar vendo Jesus crucificado, mas não é isso. A obra é uma Pietà e representa um momento posterior à crucificação: Jesus já está morto, depois de ter sido retirado da cruz. O conjunto que existe atualmente na Ponte Carlos é do escultor Emanuel Max e foi instalado em 1859. Ou seja, a escultura já estava ali havia mais de um século quando o Depeche Mode fez a famosa fotografia.
Tudo isso acontece em um monumento que, sozinho, já carrega séculos de história. A Ponte Carlos começou a ser construída em 1357, durante o reinado de Carlos IV, depois que uma ponte anterior foi destruída por uma enchente. Com mais de 500 metros de extensão, ela atravessa o rio Moldava e liga a Cidade Velha de Praga ao bairro de Malá Strana. Ao longo da ponte estão dezenas de esculturas e conjuntos religiosos que fazem dela praticamente uma galeria a céu aberto.
Só que, décadas depois da sessão com Anton Corbijn, aquele ponto específico ganhou uma história paralela. A fotografia passou de geração em geração entre os fãs, chegou às redes sociais e o local virou praticamente um ponto de peregrinação do Depeche Mode em Praga. Hoje muita gente chega à Ponte Carlos procurando exatamente a Pietà para refazer o mesmo enquadramento de 1988.
E isso é perceptível na prática. Durante o dia, a Ponte Carlos fica extremamente cheia e, naquele ponto específico, é comum encontrar até fila para conseguir fazer a fotografia. Quem quiser registrar o lugar com um pouco mais de tranquilidade precisa chegar muito cedo. Por volta das 6h ou 7h da manhã ainda é possível encontrar a ponte relativamente vazia; depois disso, o movimento aumenta rapidamente.
O mais interessante é que muita gente reproduz a imagem porque viu em alguma rede social, porque encontrou outra pessoa fazendo ou simplesmente porque sabe que aquele é “o lugar da foto do Depeche Mode”, mas não faz ideia de tudo o que existe por trás dela.
Uma ponte medieval do século XIV, uma escultura religiosa do século XIX, uma banda britânica dos anos 1980 e uma fotografia feita por um dos fotógrafos mais importantes da música acabaram criando, juntos, um dos pontos mais curiosos de Praga.
E talvez essa seja uma das melhores partes de viajar: descobrir que, muitas vezes, aquela foto que todo mundo faz carrega uma história muito maior do que o próprio enquadramento.
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Source: Turismo


