
O Centro de Desmontagem Veicular Circular Autopeças, da Stellantis, completou um ano de operação em Osasco (SP), com 1.150 veículos desmontados e mais de 11 mil peças reutilizadas vendidas. O balanço divulgado pela empresa ajuda a mostrar como o fim da vida útil de um automóvel pode abrir portas para novos negócios dentro da própria cadeia automotiva. Com a força do Grupo Stellantis – que reúne sete marcas no Brasil – a ação confirma um movimento positivo de mudança na maneira de tratar o destino dos automóveis após seu ciclo final de vida. Recuperar componentes, identificar a origem e colocá-los novamente no mercado passa a fazer parte da estratégia de pós-venda, ampliando o aproveitamento dos recursos empregados na produção do carro.
Segundo a Stellantis, neste primeiro ano de atividade do Centro de Desmontagem Veicular, mais de 20 mil peças foram recuperadas para comercialização, enquanto cerca de 862 toneladas de materiais receberam destinação correta, seguindo para reaproveitamento e reciclagem. Atualmente, a unidade de Osasco tem capacidade instalada para desmontar até 8 mil veículos por ano, o que indica espaço para expansão. “Estamos apenas no começo dessa jornada. O primeiro ano nos permitiu validar processos, desenvolver competências e comprovar o potencial da circularidade no setor automotivo”, destaca Maiara Castro, vice-presidente de Economia Circular da Stellantis para a América do Sul. No entanto, esse movimento precisa ganhar escala para chegar ao consumidor, um cenário onde o reparador tem papel decisivo nessa aproximação, pois é na oficina que o motorista pode conhecer as alternativas disponíveis, entender suas diferenças e avaliar quanto pode economizar.

Nesse contexto, é importante entender que peças reutilizadas, reparadas e remanufaturadas passam por processos diferentes. A reutilização aproveita um componente avaliado como adequado para voltar ao uso, o reparo corrige falhas, enquanto a remanufatura envolve a recuperação industrial do componente e testes de uso. Explicar essas condições é parte do trabalho de construção da confiança na compra, onde entra ainda outro atrativo de muito apelo: o preço dos componentes. O catálogo de remanufaturados da Circular Autopeças, por exemplo, apresenta valores até 40% menores, além da garantia de 12 meses.

“Um dos nossos desafios é exatamente esse, por isso estamos trabalhando muito forte para entender o que ainda falta para conquistar essa confiança do consumidor, porque, uma vez que ele usa uma peça do nosso catálogo, percebe a qualidade e a segurança oferecida por um componente que tem rastreabilidade, o resultado é muito positivo, porque ele entende que isso é incrível e passa a nos ajudar a propagar tudo isso”, comenta Maiara Castro.

No caso das peças de desmontagem, o Detran-SP exige controle e registro dos componentes reutilizáveis. A identificação de origem, a nota fiscal e as condições de garantia ajudam o consumidor a avaliar a oferta com segurança. Mas há também um trabalho de comunicação com o proprietário do automóvel sobre o benefício ambiental da peça que volta a ser utilizada, evitando a substituição prematura de materiais e aproveitando parte do trabalho industrial já realizado. O primeiro ano da operação do CDV de Osasco mostra que esse caminho começa a se estruturar e confirma o potencial de ampliação da oferta, mas também reforça necessidade de preparar oficinas e vendedores para essas soluções, uma ação tão importante quanto recuperar componentes.
Lwart: quando o óleo usado volta como matéria-prima
A destinação dos fluidos retirados dos veículos desmontados pela Circular AutoPeças ganhou um importante reforço com a parceria entre a Stellantis, a Lwart Soluções Ambientais e a Motul. Nesse ciclo, a Lwart coleta e rerrefina o óleo lubrificante usado ou contaminado, enquanto a Motul emprega o óleo básico resultante desse processo na formulação e na produção de novos lubrificantes. Essa parceria envolve um detalhe curioso e ainda pouco conhecido pelo consumidor: o lubrificante novo é produzido a partir da combinação de óleo básico com aditivos, sendo que esse óleo básico pode ser obtido diretamente do refino do petróleo ou, como ocorre com parte do conteúdo utilizado nessa iniciativa, do rerrefino do próprio óleo lubrificante usado.

Essa transformação é realizada pela Lwart, empresa brasileira especializada na coleta e no rerrefino desse tipo de resíduo. Em vez de ser descartado, o óleo usado passa por um processo industrial que remove água, impurezas, contaminantes e compostos resultantes da degradação, permitindo que o material volte à condição de óleo básico, com as características necessárias para servir novamente como matéria-prima na fabricação de lubrificantes. É um ciclo que ajuda a entender, na prática, o conceito de economia circular: o óleo retirado de um veículo pode ser recuperado, processado e retornar ao mercado na composição de um novo produto automotivo.

A Lwart mantém uma rede de coleta que alcança mais de 3.800 municípios brasileiros e encaminha o óleo recolhido para sua planta industrial em Lençóis Paulista, no interior de São Paulo. Atualmente, a empresa atende cerca de 116 mil clientes e possui capacidade para processar aproximadamente 240 milhões de litros de óleo usado por ano. O resultado da parceria foi o lançamento da linha Motul NGEN Circular AutoPeças, desenvolvida para motores e transmissões. Segundo a Lwart, dependendo da aplicação, os produtos podem apresentar entre 30% e 70% de conteúdo proveniente do rerrefino.
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