Alsácia: a rota de vinhos mais antiga da França
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Alsácia: a rota de vinhos mais antiga da França

Existe uma estrada de 170 quilômetros no nordeste da França que atravessa cerca de 70 vilarejos vinícolas, passa ao pé de 51 Grands Crus e foi inaugurada em 30 de maio de 1953, o que a torna a rota de vinhos mais antiga do país. Ela liga Marlenheim, ao norte de Estrasburgo, a Thann, ao sul de Colmar, e corre sempre no mesmo lugar: a faixa estreita de encosta onde os Vosges descem em direção à planície do Reno. Essa geografia explica tudo o que vem depois.

Um pedaço da França que passou a vida mudando de país
A Alsácia é formada pelos departamentos do Bas-Rhin e do Haut-Rhin, e mudou de nacionalidade quatro vezes entre 1870 e 1945. O resultado está na paisagem e no copo. Os nomes dos vinhedos são alemães (Rangen, Schlossberg, Sporen), a arquitetura é de casas de enxaimel com gerânios nas janelas, a comida vem de tradição germânica, e o vinho é francês em classificação e em método. É uma das poucas regiões da França onde o rótulo traz a casta em destaque, e não apenas a denominação, prática que o mercado internacional aprendeu a ler com facilidade e que ajudou muito na projeção da região lá fora.

A cadeia dos Vosges também funciona como um paredão que barra as chuvas vindas do Atlântico. Colmar está entre as cidades mais secas da França, com sol de sobra no outono, e é justamente isso que permite deixar a uva na videira até o limite. Somando altitude entre 200 e 400 metros, solos que variam de granito a gnaisse, calcário conchífero, marga, arenito rosa e até rocha vulcânica em Thann, a Alsácia reúne uma diversidade geológica difícil de encontrar em tão pouco território.

As sete castas
Riesling, Gewurztraminer, Pinot Gris, Muscat, Pinot Blanc, Sylvaner e Pinot Noir. O Riesling é o grande nome da casa, seco, tenso, mineral, com capacidade de guarda que rivaliza com a de muitos tintos. O Gewurztraminer é o mais reconhecível de todos, com aroma de lichia, rosa e especiarias, e casamento perfeito com o queijo Munster e com a cozinha asiática. O Pinot Gris tem corpo e textura de cera, encara pratos mais gordos e é o coringa da mesa. O Muscat aqui é seco, floral, e vale como aperitivo. Pinot Blanc e Sylvaner fazem o trabalho cotidiano, os vinhos de almoço, honestos e baratos. O Pinot Noir é o único tinto autorizado na denominação, e vem ganhando seriedade nos últimos anos, inclusive com permissão recente para figurar em alguns Grands Crus.

Vale conhecer também o Crémant d’Alsace, espumante de método tradicional que ganhou denominação própria em 1976 e hoje responde por cerca de um quinto de tudo o que a região engarrafa. É uma das melhores relações entre preço e qualidade da França inteira, e uma alternativa muito mais interessante ao champanhe genérico que se bebe por aí.

Grands Crus, colheita tardia e a parte doce da história
Os 51 Grands Crus da Alsácia são parcelas delimitadas, cada uma com denominação própria desde 2011, e podem variar de 3 a 80 hectares. Só as quatro castas nobres (Riesling, Gewurztraminer, Pinot Gris e Muscat) entram neles. Representam apenas cerca de 4% da produção, o que dá a dimensão exata de quão restrito é esse topo da pirâmide.

Nos anos excepcionais surgem as duas menções mais cobiçadas. Vendanges Tardives vem de uvas colhidas em sobrematuração. Sélection de Grains Nobles vem da botrytis, a podridão nobre, colhida bago a bago em passagens sucessivas pelo vinhedo. São dois dos regulamentos mais severos de toda a legislação francesa, e explicam por que essas garrafas custam o que custam. Outra particularidade: desde 1972 é obrigatório engarrafar o vinho dentro da própria região, sempre na flûte alsaciana, aquela garrafa alta e esguia.

O trajeto, vilarejo por vilarejo
A rota é sinalizada em amarelo e acompanha basicamente a estrada D35. Do norte para o sul, começa em Marlenheim e passa por Barr, Heiligenstein (onde se prova o raríssimo Klevener), Mittelbergheim e Andlau, região mais discreta e menos disputada. Na altura de Sélestat aparece o castelo de Haut-Koenigsbourg, a 757 metros de altitude, uma das fortalezas medievais mais bem conservadas da Europa, com vista até a Floresta Negra em dias limpos.

Vem então o trecho mais fotografado, o coração da rota: Bergheim, Ribeauvillé, Hunawihr, Riquewihr, Kaysersberg e Eguisheim. Cinco desses vilarejos estão na lista dos Plus Beaux Villages de France, e Eguisheim, com seu traçado circular, já foi eleito o vilarejo preferido dos franceses. Riquewihr é o mais visitado, escapou quase intacta da Segunda Guerra e por isso parece cenário. Colmar funciona como base natural, com estrutura de cidade e canais do bairro da Petite Venise.

Ao sul, o ritmo muda. Guebwiller concentra sozinha quatro Grands Crus, e Thann guarda o Rangen, o mais meridional e o mais íngreme da Alsácia, de solo vulcânico e mineralidade quase salgada. É o trecho menos turístico e, para quem já entende de vinho, o mais recompensador.

Como percorrer
De carro, o trajeto completo pede de três a cinco dias com degustações e paradas nos vilarejos. Quem tiver menos tempo pode se concentrar nos 25 quilômetros centrais, entre Ribeauvillé e Eguisheim, e resolver em dois dias. De bicicleta há a Véloroute du Vignoble, integrada à EuroVelo 5, e a pé existe o GR 534, que atravessa os vinhedos. Setembro e outubro são o auge, com a vindima em curso, as parreiras douradas e as festas de vinho se sucedendo de vilarejo em vilarejo. Dezembro tem os mercados de Natal, que são espetaculares, mas com preços e multidões proporcionais.

Um detalhe que costuma passar despercebido: mais de um quarto da área plantada da Alsácia é de cultivo orgânico ou biodinâmico, recorde nacional. Não é discurso de marketing, é prática consolidada, e aparece nos vinhos.

Dica do Vitor
Eu não tento vencer a rota inteira. Escolho duas ou três bases, durmo nos vilarejos menores e deixo Colmar e Riquewihr para as primeiras horas da manhã, antes dos ônibus de excursão chegarem. Marco as visitas aos produtores com antecedência, porque as casas pequenas atendem por hora agendada e é exatamente nelas que a conversa vale. Almoço sempre em winstub, a taberna alsaciana, pedindo o vinho em carafe. E evito comprar na primeira degustação. A tentação é grande, mas os preços variam bastante entre produtores, e o Crémant é quase sempre a garrafa que dá mais alegria por menos dinheiro na mala de volta.

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