As Chaminés de Fada, na região de Campos Belos (GO), são torres naturais moldadas pela erosão e coroadas por blocos de rocha
Eduardo Lucas/Arquivo pessoal

As Chaminés de Fada, na região de Campos Belos (GO), são torres naturais moldadas pela erosão e coroadas por blocos de rocha

Entre os paredões das Serras Gerais, quase no ponto em que Goiás encontra a Bahia e o Tocantins, ergue-se uma formação geológica considerada rara em escala mundial pelos pesquisadores que a estudam. No leito hoje seco de um rio caudaloso, colunas de arenito sustentam blocos de rocha mais resistentes no topo, como se equilibrassem grandes chapéus. São as Chaminés de Fada, no povoado de Pouso Alto, zona rural de Campos Belos, no nordeste goiano.

Algumas têm poucos centímetros. Outras chegam a cerca de três metros de altura. Depois de permanecer fechado enquanto pesquisadores mapeavam o terreno, definiam uma trilha e preparavam moradores para conduzir os grupos, o conjunto começou a receber visitantes em setembro.

Chaminés de Fada se espalham pelo leito arenoso aos pés das Serras Gerais, em Pouso Alto, distrito de Campos Belos (GO)
Joana Paula Sánchez/Arquivo Pessoal

Chaminés de Fada se espalham pelo leito arenoso aos pés das Serras Gerais, em Pouso Alto, distrito de Campos Belos (GO)


Saiba como visitar

Para conhecer as Chaminés de Fada, é necessário fazer a reserva antecipadamente pelo site oficial do atrativo. O ingresso para visitantes de 10 a 64 anos custa R$ 70, e o acesso é limitado a 50 pessoas por dia. A presença de um condutor credenciado é obrigatória: o serviço custa R$ 200 por grupo de até seis visitantes e pode ser dividido entre os participantes.

A trilha tem três quilômetros, duração média de duas horas e nível moderado de dificuldade. A recomendação é levar água, usar calçado fechado, chapéu ou boné e permanecer nas áreas autorizadas. Não é permitido subir nas formações, retirar pedras ou entrar com animais.

Primeiros visitantes relatam experiência

O acesso é feito por uma propriedade rural. O visitante segue de carro até as proximidades da trilha e, de lá, percorre aproximadamente dois quilômetros a pé pelo leito arenoso do antigo rio. Cordas e fitas indicam o caminho permitido e separam os turistas das áreas mais frágeis.

O advogado Eduardo Lucas, natural de Campos Belos e morador de Brasília, esteve entre os primeiros visitantes levados ao local durante a fase de testes. Ele conheceu as formações acompanhado de familiares e descreveu a chegada como um encontro com uma paisagem difícil de dimensionar apenas pelas fotografias.

“Acho que a sensação que fica é de total pequenez”, afirmou. Ao redor das colunas, há paredões, passagens sob blocos de pedra e vestígios da força da água que atravessou aquele trecho durante milhares de anos.

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Eduardo Lucas/Arquivo pessoal

Eduardo Lucas foi um dos primeiros visitantes das Chaminés de Fada

A viagem de Eduardo não terminou na trilha. A poucos quilômetros das chaminés está o Rio Mosquito, de águas esverdeadas e azuladas, que marca parte da divisa entre Goiás e Tocantins. Depois da visita, ele e os primos almoçaram em uma chácara da comunidade, à sombra do rio e com opção de banho.

O cardápio tinha galinha caipira com pirão, arroz, feijão e salada. Na sede da propriedade, o grupo também encontrou cachaça de alambique e a rapadura serenta, uma versão mais macia e elástica do doce de cana, tradicional no nordeste goiano.

“É uma experiência completa”, resumiu Eduardo.

Os “castelinhos” de seu Domingos

Embora a identificação científica seja recente, as formações eram conhecidas havia décadas por Domingos Ferreira da Silva, proprietário da área, e por seus familiares. Desde menino, ele observava as estruturas e as chamava de “castelinhos”, sem saber como haviam surgido ou se tinham relevância geológica.

A pergunta de Domingos chegou à geóloga Joana Paula Sánchez, professora do curso de Geologia da Universidade Federal de Goiás (UFG). A primeira visita técnica ocorreu em maio de 2023 e reuniu também as professoras Fernanda Canile e Débora Cavalcanti, da UFG, e o professor Filipe Temporim, então vinculado à universidade e atualmente na Universidade Federal de Ouro Preto.


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Joana Paula Sanches/Arquivo Pessoal

Joana Paula é geóloga e pesquisou a formação geológica em Goiás

Joana trabalha com patrimônio geológico há cerca de 20 anos. Ao chegar à propriedade, percebeu a dimensão do conjunto e, ao mesmo tempo, a fragilidade das estruturas. A equipe decidiu não divulgar imagens nem a localização antes de definir medidas de proteção.

“Quem descobriu mesmo foi o seu Domingos, não foi a gente”, ressaltou a pesquisadora.

A identificação foi  divulgada pela UFG em outubro de 2025.  O tamanho, a quantidade e o estado de conservação das estruturas de Campos Belos tornaram o registro inédito no país.

Nos meses seguintes, pesquisadores mapearam a área, delimitaram a trilha e separaram o trecho que poderia receber visitantes. Parte do conjunto permanece fechada, inclusive para pesquisas, como forma de conservar estruturas ainda intactas.

Torres esculpidas pela água por milhares de anos

As chaminés de fada, também chamadas de demoiselles, são formadas pela erosão diferencial. Relatos de moradores indicam que ainda havia água no leito durante a década de 1960.

Em Campos Belos, pedras mais duras caíram sobre uma camada de arenito mais vulnerável. Os blocos superiores exerceram pressão e protegeram parte do material abaixo deles, enquanto a água retirava o sedimento ao redor. Com o tempo, permaneceram as colunas estreitas sustentando as rochas no topo.


Segundo Joana, os arenitos da região têm aproximadamente 400 milhões de anos e se formaram quando aquela parte do território era um grande deserto. As chaminés são muito mais recentes. A pesquisadora estima que um rio de grandes proporções tenha começado a escavar o terreno há cerca de 100 mil anos.

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Eduardo Lucas/Arquivo pessoal

Arenitos da região tem milhões de anos

As formações mais conhecidas no mundo estão na Capadócia, na Turquia, no Bryce Canyon, nos Estados Unidos, e nos Alpes franceses. Parte delas está associada a materiais vulcânicos ou a outros processos de intemperismo. Em Campos Belos, a dimensão do conjunto e a formação dentro do curso de um rio tornam a ocorrência ainda mais incomum.

Turismo sob limites

A abertura para visitação foi condicionada à adoção de regras. A entrada ocorre somente com condutores locais treinados, e o visitante não pode tocar nas colunas nem subir sobre os bancos de arenito.

Na passagem mais estreita da trilha, apenas seis pessoas por vez podem acompanhar cada condutor. Os demais visitantes aguardam do lado de fora até o retorno do grupo. Também foi demarcado um ponto em uma área menos vulnerável para fotografias.

“A gente brinca que só de respirar ela cai”, disse Joana ao explicar a fragilidade das estruturas.

O planejamento também buscou impedir que as chaminés se tornassem apenas um ponto de passagem. Uma das condições para a abertura, segundo a pesquisadora, foi envolver moradores de Pouso Alto na condução das visitas, na alimentação e na oferta de produtos locais.

“Não o turismo de visitação em massa de um lugar bonito e ir embora. É para ter o turismo regional também, local”, afirmou.

Nas primeiras reuniões, Joana ouviu de moradores que o povoado não teria nada para mostrar aos turistas. A resposta foi direta: “Pelo contrário, vocês têm tudo para mostrar.”

Fora da rota do turismo

Segundo a Agência Estadual de Turismo de Goiás (Goiás Turismo),   atrativo está localizado na área da Região Turística Terra Ronca, uma das 13 regiões organizadas no estado dentro da política de regionalização. Campos Belos, no entanto, ainda não integra formalmente o Mapa do Turismo Brasileiro, mantido pelo Ministério do Turismo.

O mapa define os municípios e as regiões considerados prioritários para ações de planejamento, estruturação, qualificação e promoção turística. Para ingressar, a prefeitura precisa cumprir requisitos administrativos e de governança, estruturar a área municipal responsável pelo turismo e encaminhar a documentação ao Ministério do Turismo.

A Goiás Turismo poderá orientar Campos Belos nesse processo, mas não decide a entrada do município no mapa. A inclusão também não ocorrerá automaticamente com a abertura das Chaminés de Fada.

Depois da inauguração, a agência prevê incluir o novo destino em ações de divulgação do turismo goiano, inclusive em feiras nacionais e internacionais. 



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