De Uber para outro país em menos de uma hora
Reproducao / Vitor Vianna

De Uber para outro país em menos de uma hora

Viena e Bratislava são as duas capitais mais próximas da Europa. Separadas por cerca de 60 quilômetros e ligadas pelo Danúbio, as cidades ficam tão perto que é possível tomar café da manhã no hotel, na capital austríaca, e menos de uma hora depois estar caminhando pelas ruas de pedra do centro histórico eslovaco. Sem aeroporto, sem fila de embarque e, por estarem as duas no espaço Schengen, sem controle de passaporte na fronteira.

Não por acaso, Bratislava é visitada principalmente em bate e volta. A grande maioria dos turistas que passa pela cidade está hospedada em Viena e reserva a ela um único dia do roteiro, formato que funciona muito bem: o centro histórico é compacto, as principais atrações ficam próximas umas das outras e tudo pode ser feito a pé. A decisão mais importante é como fazer o trajeto, e essa escolha muda completamente o aproveitamento do passeio.

As quatro formas de fazer o trajeto:
1. Ônibus
Empresas como a FlixBus oferecem saídas frequentes de Viena para Bratislava, com passagens baratas e viagem de pouco mais de uma hora. O problema está nas pontas. Primeiro, é preciso sair do hotel e chegar ao terminal de partida em Viena, o que geralmente exige metrô ou carro de aplicativo. Depois, em Bratislava, o desembarque costuma acontecer na rodoviária de Nivy, a cerca de dois quilômetros do centro histórico. Isso significa uma caminhada de aproximadamente meia hora até as primeiras atrações ou mais uma corrida de aplicativo ao descer.

2. Trem
Os trens partem da estação central de Viena, a Wien Hauptbahnhof, e levam cerca de uma hora até a estação principal de Bratislava. Na prática, a lógica é a mesma do ônibus: a estação eslovaca fica fora do centro histórico, e o viajante precisa resolver dois deslocamentos extras, um em cada cidade, além de encarar o mesmo processo na volta.

3. Barco
A opção mais cênica é o Twin City Liner, catamarã de alta velocidade que liga as duas capitais pelo Danúbio. O embarque em Viena acontece no píer da Schwedenplatz, na beira do canal do Danúbio, perto do centro, com acesso pelas linhas U1 e U4 do metrô. A viagem dura entre 1h15 e 1h30, já que a volta, contra a correnteza, é mais demorada. O desembarque em Bratislava é no cais Rázusovo nábrežie, a poucos minutos a pé do centro histórico, o que é uma vantagem em relação a ônibus e trem.

A bordo, há assentos com janelas panorâmicas, deck aberto quando o tempo permite e serviço de lanches e bebidas. Mas o barco tem limitações importantes. Funciona apenas em temporada, a partir de março, com no máximo três saídas diárias, o que exige reserva antecipada e pouca flexibilidade de horário. O check-in deve ser feito meia hora antes da partida, a passagem é cobrada por pessoa e custa bem mais que ônibus ou trem, e ainda é preciso chegar até a Schwedenplatz saindo do hotel. Funciona melhor como experiência do que como meio de transporte prático.

4. Carro de aplicativo
A melhor opção é o carro de aplicativo. Uber e Bolt operam em Viena e fazem a corrida até Bratislava normalmente, basta informar o destino no app como em qualquer trajeto urbano.

A grande vantagem é que o carro é chamado na porta do hotel em Viena e deixa o passageiro exatamente no ponto de início do passeio em Bratislava. Não há baldeação, espera em plataforma, check-in ou caminhada até estação. Enquanto ônibus, trem e barco podem somar quase duas horas de deslocamento porta a porta, de carro o trajeto leva menos de 60 minutos.

O conforto também pesa. A estrada atravessa a planície do leste austríaco, marcada por dezenas de turbinas eólicas, e a passagem pela fronteira acontece sem paradas. Quando se percebe, as placas já estão em eslovaco.

O preço, que costuma ser a principal objeção, surpreende. A corrida custa em média 80 euros, variando conforme a região de Viena onde fica o hotel, o horário e a demanda do aplicativo. Para quem viaja sozinho, ônibus e trem continuam mais baratos. Mas, para um casal, uma família ou um grupo de quatro pessoas, a divisão da corrida deixa o custo por pessoa muito próximo do que se gastaria combinando passagem e deslocamentos extras em cada cidade, e abaixo do valor do barco, com a vantagem de ganhar tempo, ter liberdade de horário e chegar descansado.

De Pressburg a Bratislava
Com cerca de 475 mil habitantes, Bratislava é a maior cidade da Eslováquia e ocupa uma posição geográfica única: é a única capital do mundo que faz fronteira com dois países, a Áustria e a Hungria.

O nome atual é relativamente recente. Durante séculos, a cidade foi conhecida como Pressburg, em alemão, e Pozsony, em húngaro, reflexo de uma história ligada ao Império Habsburgo e ao Reino da Hungria. Com o avanço otomano sobre Buda, no século 16, Pressburg passou a ser a capital do Reino da Hungria, papel que manteve até o fim do século 18. Entre 1563 e 1830, a Catedral de São Martinho foi palco da coroação de reis e rainhas húngaros, entre eles a imperatriz Maria Teresa. Em 1805, a cidade voltou aos livros de história com a assinatura do Tratado de Pressburg, após a vitória de Napoleão sobre austríacos e russos na Batalha de Austerlitz.

O século 20 mudou tudo. Com o fim da Primeira Guerra Mundial e o colapso do Império Austro-Húngaro, surgiu em 1918 a Tchecoslováquia, e a cidade passou a se chamar oficialmente Bratislava. Depois da Segunda Guerra, o país ficou sob regime comunista, e a Cortina de Ferro corria praticamente na beira da cidade, separando-a da Áustria. É dessa época a Ponte SNP, inaugurada em 1972, cuja construção levou à demolição de parte do centro antigo, incluindo boa parte do bairro judeu.

Após a Revolução de Veludo, que derrubou o comunismo em 1989, tchecos e eslovacos decidiram seguir caminhos separados. Em 1º de janeiro de 1993, de forma pacífica, a Tchecoslováquia deixou de existir, no episódio conhecido como Divórcio de Veludo. Nascia a Eslováquia independente, com Bratislava como capital. O país entrou para a União Europeia e para a Otan em 2004 e adotou o euro em 2009.

Onde desembarcar
Para quem vai de carro de aplicativo, o ponto ideal para descer é a Igreja de Santa Isabel, conhecida como Igreja Azul. No aplicativo, basta digitar “Modrý kostolík“, nome local da igreja, “Blue Church Bratislava” ou o endereço Bezručova 2. Projetada pelo arquiteto húngaro Ödön Lechner e concluída no início do século 20, a igreja é uma joia do art nouveau, pintada em tons de azul por dentro e por fora, e rende algumas das fotos mais bonitas da cidade.

A escolha tem lógica. A Igreja Azul fica a poucos minutos a pé do centro histórico e permite montar um percurso linear, sem idas e vindas, que atravessa as principais atrações e termina no ponto mais alto da cidade, o castelo, de onde sai a volta para Viena.

Um roteiro inteiro a pé
Da Igreja Azul, uma caminhada de 10 a 15 minutos leva à Praça Hviezdoslav, longa e arborizada, onde fica o prédio histórico do Teatro Nacional Eslovaco. Dali, o caminho segue pelas ruelas do centro antigo. Na esquina das ruas Panská e Rybárska está Čumil, a estátua de bronze de um trabalhador que espia a rua de dentro de um bueiro, uma das atrações mais fotografadas de Bratislava.

Poucos passos adiante surge a Praça Principal, com a Antiga Prefeitura, a Fonte de Rolando e a estátua de um soldado napoleônico debruçado sobre um banco. Logo atrás fica o Palácio Primacial, onde foi assinado o tratado de 1805, com seu elegante Salão dos Espelhos. O percurso continua pela Rua Michalská, cheia de lojinhas, cafés e casas históricas, até o Portão de São Miguel, única porta remanescente das antigas muralhas medievais. A torre pode ser visitada e oferece uma bela vista dos telhados do centro histórico.

A região da Michalská, da Rua Ventúrska e do entorno da Praça Principal concentra boa parte dos restaurantes, e é ali que vale fazer a pausa para o almoço. O prato nacional é o bryndzové halušky, pequenos nhoques de batata com queijo de ovelha e bacon, que combina bem com uma cerveja local ou com a Kofola, refrigerante tradicional criado nos tempos da Tchecoslováquia. Os preços são sensivelmente mais baixos do que os de Viena.

Subida ao castelo e volta para Viena
Depois do almoço, o caminho segue pela Ventúrska, onde fica o Palácio Pálffy, no qual Mozart se apresentou aos seis anos de idade, até a Catedral de São Martinho. Uma réplica da coroa húngara enfeita o topo da torre, e pequenas coroas de bronze no chão marcam o antigo percurso das cerimônias de coroação.

Da catedral começa a subida a pé até o Castelo de Bratislava, um trecho de cerca de 15 minutos por escadarias e ladeiras de pedra. A construção retangular, com quatro torres nos cantos, é apelidada pelos locais de “mesa virada”. Os jardins e as áreas externas podem ser percorridos livremente, e o interior abriga exposições do Museu Nacional Eslovaco. Do alto, a vista alcança o Danúbio, a Ponte SNP com sua torre em formato de disco voador, os prédios da era comunista do bairro de Petržalka e, em dias de céu limpo, território austríaco e húngaro.

É do próprio castelo que se chama o carro de volta. O acesso de veículos chega até a área do castelo, e basta marcar “Bratislavský hrad” como ponto de embarque e o endereço do hotel em Viena como destino. Sem precisar descer a colina no fim do dia nem correr para pegar trem, ônibus ou barco em horário fixo, em menos de uma hora o viajante está de volta à porta do hotel.

Informações práticas
O idioma oficial é o eslovaco, língua eslava muito próxima do tcheco, mas o inglês é bastante comum nas áreas turísticas, e muita gente também fala alemão. A moeda é o euro, o que dispensa câmbio para quem chega da Áustria, e cartões são aceitos na maioria dos estabelecimentos. O fuso horário é o mesmo de Viena. Brasileiros não precisam de visto, e, como a fronteira fica dentro do espaço Schengen, não há controle de rotina, mas é indispensável levar o passaporte, que é exigido inclusive no embarque do barco, e fiscalizações pontuais podem acontecer nas estradas.

Dica do Vitor
Minha recomendação é sair de Viena cedo, por volta das 9h, para chegar a Bratislava com as ruas ainda tranquilas e ter o dia inteiro pela frente. Antes de confirmar a corrida, compare os valores no Uber e no Bolt, tanto na ida quanto na volta, porque a diferença entre os dois aplicativos pode ser grande dependendo do horário. Se a ideia é viver a experiência do Danúbio, uma boa combinação é ir de barco pela manhã e voltar de carro de aplicativo direto do castelo, sem depender do horário da embarcação. Use calçado confortável, já que o centro histórico tem muito calçamento de pedra e a subida ao castelo exige um pouco de fôlego. Em dupla, em família ou em grupo, dividir o carro transforma um bate e volta que poderia ser cansativo em um dos passeios internacionais mais práticos e confortáveis que se pode fazer a partir de Viena.

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