Filme de Zach Cregger abandona protagonistas e histórias conhecidas da franquia
Se você entrar no cinema esperando encontrar Leon Kennedy, Jill Valentine, Chris Redfield ou Claire Redfield no novo Resident Evil, é melhor ajustar as expectativas. O novo filme, dirigido por Zach Cregger, não adapta diretamente nenhum dos jogos e acompanha Bryan, um entregador médico vivido por Austin Abrams que acaba entrando em uma noite cada vez mais absurda e aterrorizante.
Para parte dos fãs, isso pode parecer justamente o problema. Depois de tantas adaptações, por que é tão difícil simplesmente pegar um dos jogos e transformá-lo em filme?
Ok, é uma pergunta legítima. Mas talvez exista outra maneira de olhar para o que Cregger está fazendo: e se uma adaptação não precisar reproduzir uma história para permanecer fiel à experiência que a originou?
Cregger sabe que essa discussão existe. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, o diretor disse enxergar diferentes tipos de fãs da franquia: aqueles particularmente ligados aos personagens e à mitologia e outros, grupo no qual ele próprio se inclui, interessados principalmente na experiência de jogar Resident Evil.
“Há fãs como eu que adoram a experiência de jogar e acham que nunca houve um filme que representasse como é jogar Resident Evil”, explicou.
Cregger não parece interessado em recriar a história de um Resident Evil. Ele quer tentar recriar a sensação de estar dentro de um.
Essa discussão está longe de existir apenas entre fãs de videogames. O conceito de fidelidade é debatido há décadas nos estudos sobre adaptações, e pesquisadores como Robert Stam e Linda Hutcheon questionaram a ideia de que uma nova versão de uma obra deva ser avaliada simplesmente pelo quanto consegue reproduzir seu material de origem.
Isso não significa que qualquer mudança seja automaticamente boa. Uma adaptação pode alterar tanto seu material que perde justamente aquilo que fazia a obra original funcionar. A questão talvez seja outra: o que precisa permanecer para que aquela história, personagem ou universo continue sendo reconhecível?
E videogames tornam essa discussão ainda mais interessante. Um jogo não é feito apenas de roteiro e personagens. Existe também aquilo que sentimos enquanto jogamos.
Pense no que significa jogar Resident Evil. Você entra em um lugar desconhecido. Não sabe exatamente o que encontrará atrás da próxima porta. Explora corredores, procura caminhos, administra recursos, encontra armas melhores e tenta sobreviver enquanto a situação fica progressivamente pior.
São elementos que não exigem Leon ou Jill para existir.
O novo filme trabalha justamente com essa lógica. Bryan começa como um sujeito comum, completamente despreparado para o que está acontecendo, e vai sendo lançado cada vez mais fundo naquele pesadelo.
Ele se depara com portões trancados, esgotos, instalações, lugares aparentemente inabitados e armas, sendo uma estrutura diretamente ligada à experiência dos jogos.
Talvez colocar Leon Kennedy na tela seja uma maneira de adaptar Resident Evil. Fazer o espectador sentir aquilo que sentia controlando Leon Kennedy pode ser outra.
Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City é um bom exemplo de que fidelidade não significa um bom filme
Também não precisamos ir muito longe para perceber que reconhecer elementos de um jogo na tela não transforma automaticamente uma adaptação em um bom filme.
O filme de 2021, Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, tomou um caminho muito mais próximo dos games. Leon, Claire, Chris, Jill e Wesker estavam lá. Locais conhecidos estavam lá. Diversas imagens e acontecimentos remetiam diretamente aos primeiros títulos da franquia.
Isso, por si só, não resolveu o filme.
Da mesma maneira, criar uma história completamente nova não torna automaticamente o Resident Evil de Cregger bom. Fidelidade e qualidade são duas discussões diferentes.
O que podemos avaliar é se as mudanças possuem propósito, e se aquilo colocado no lugar consegue capturar algo importante do original.
Em vez de depender da familiaridade do público com os personagem dos jogos, Cregger nos coloca naquele universo pelos olhos de alguém tão despreparado quanto nós estaríamos.
Austin Abrams funciona muito bem como esse sujeito comum que só queria terminar mais uma noite de trabalho, enquanto o diretor transforma cada novo problema em algo mais estranho, desesperador e imprevisível.
Além do mais, é empolgante perceber que estamos acompanhando em tempo real a consolidação de um dos cineastas mais interessantes do terror atual. Depois de Noites Brutais e A Hora do Mal, Zach Cregger chega a Resident Evil sem abrir mão da personalidade que tornou seu trabalho tão particular.
Em vez de simplesmente se curvar ao peso de uma franquia gigantesca, ele se apropria dela, leva sua própria visão para aquele universo e parece entender algo fundamental: para fazer Resident Evil, talvez seja mais importante reproduzir a sensação de estar preso naquele pesadelo do que simplesmente colocar os personagens certos dentro dele.
Existe algo compreensível em querer finalmente assistir àquela versão perfeita de um jogo que você ama. Querer Leon, Jill ou qualquer outro personagem representado de maneira fiel não transforma ninguém em um fã exigente demais.
Mas talvez o novo Resident Evil fique mais interessante quando deixamos essa checklist do lado de fora da sala.
Resident Evil está em cartaz nos cinemas.
Source: Legião dos Heróis



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